jun 30 2009

O Falso refúgio… e o verdadeiro.

Inexorável Solidão que acomete as almas
A meio caminho entre de onde e para onde
Cá onde o homem se engana e esconde
Buscando refúgio sempre em águas calmas

Mas, ai! Sempre lhe alcança tormenta
Testando-lhe cada tábua da barcaça
E inda que aos olhos venha a ser carcaça
Oculto no peito sopro há que o alenta.

Esperneia chorando como veio ao mundo
Quando o momento de deixá-lo se apresenta
A não ser que — por um breve segundo –

Tenha visto, através da tormenta,
E Desde o Silente mar profundo
A suave mão que lhe sustenta!


abr 21 2009

Chama!

Quando em meu peito acende o amor por Ti
Sou assaltado de uma febre estranha
Que, desde dentro, ferve minhas entranhas
Chama que arde de onde nunca vi.

E ainda que ontem fosse um káfir
Hoje eu me sinto convertido em chama
Tu findas sempre em consumir quem ama
Submeter-se irrestrito a ti.

Um passa a vida em oração e: fim.
Morre esquecido do Amor Celestial
Outro consome-se a partir do mal
E finda por tornar-se um querubim

Maior que a vida de qualquer mu’min
É se deixar queimar por esta chama;
Só sabe o que é amor a ti quem ama
E sabe a ti consagrar o seu fim.


abr 21 2009

O conhecimento deste mundo

Abu Hamid Al-Ghazzali
De “La Alquimia de La felicidad”, Collección Generalife, Editorial Sufi, 2002

Este mundo é como um palco ou uma praça de mercado, pelo qual passam os peregrinos a caminho de outro mundo. É o lugar onde têm que abastecer-se para o caminho; Dito mais claramente, o homem adquire aqui, por meio de seus sentidos corporais, um certo conhecimento das obras de Deus e, através delas, de Deus mesmo, cuja visão vai constituir a sua felicidade futura. E é precisamente para adquirir este conhecimento que o espírito do homem desceu até este mundo de água e argila.

Enquanto seus sentidos lhe acompanham se diz que está “neste mundo”. Quando lhe abandonam, se diz que se foi ao outro mundo. Enquanto o homem está neste mundo, necessita de duas coisas: primeiro, a proteção e nutrição de sua alma; segundo, o cuidado e alimento de seu corpo.

O alimento apropriado para a alma, como vimos previamente, é o conhecimento e o amor de Deus, e ver-se absorvido pelo amor de outra coisa que não Deus é a ruína da alma. O corpo é, por assim dizer, a montaria da alma, e perece, enquanto a alma permanece. A alma deve cuidar do corpo da mesma forma que um peregrino que vai a Meca cuida de seu camelo;
Porém se o peregrino dedica todo o seu tempo a alimentar e adornar o seu camelo, a caravana lhe deixará para trás e perecerá no deserto. As necessidades corporais do homem são simples e estão compreendidas em três categorias: alimento, vestimenta, e abrigo; porém os desejos corporais com que foi dotado para que as satisfizesse podem revelar-se contra a razão, cujo desenvolvimento é posterior.

Portanto, como já vimos anteriormente, é necessário que sejam dominadas e contidas pelas leis divinas reveladas pelos profetas. Se consideramos o mundo no qual nos temos que desenvolver durante um tempo, encontraremos que está dividido em três reinos: animal, vegetal e mineral; O homem necessita constantemente dos produtos dos três, e deu lugar a três ocupações principais: tecedor, construtor e forjador. Estas, por sua vez, têm ramificações subordinadas, como as de alfaiate, pedreiro, ferreiro, etc.

Nenhuma delas pode ser totalmente independente das demais, e isso proporciona diversos contatos e relações comerciais, e estes, com demasiada freqüência, geral ocasiões para o ódio, para a inveja, os ciúmes e outras enfermidades da alma. Daqui nascem discussões e disputas, tornando necessário um governo político e civil, e o conhecimento da lei.

Desta forma, as ocupações e assuntos do mundo se tornaram mais e mais complicados e incômodos, principalmente devido ao fato de que os homens esqueceram que suas autênticas necessidades são apenas três: vestimenta, comida e abrigo, e que estas só existem com o único objetivo de fazer do corpo um veículo apropriado para a alma em seu caminho ao outro mundo. Caíram no mesmo erro do peregrino de Meca que mencionávamos mais acima, o qual, esquecendo-se do objetivo de sua caminhada, e de si mesmo, dedicava todo o seu tempo a alimentar e adornar seu camelo. A não ser que o homem mantenha uma vigilância muito estreita, é seguro que ficará fascinado e enredado pelo mundo que, como disse o profeta, “é um feiticeiro mais poderoso que Harut e Marut”(1).

O caráter enganoso do mundo se manifesta das seguintes maneiras: Em primeiro lugar, finge que sempre estará contigo, enquanto na realidade te escapa pouco a pouco, dizendo-te adeus como uma sombra que parece estática, mas que está em contínuo movimento. Também o mundo se apresenta sob o aspecto de uma bela feiticeira, que finge estar apaixonada por ti, que te mima, e após isto, se vai com teus inimigos, deixando-te para que morras de desgosto e desespero. Jesus (que a paz seja com ele!) Via o mundo com a forma de uma bruxa velha e feia. Lhe perguntou quantos maridos havia tido; ela respondeu: “inumeráveis”. Perguntou se haviam morrido ou se divorciado dela; Ela lhe disse que havia matado a todos. “Me surpreendem” – disse – “Esses néscios que vêem o que fizeste aos outros e ainda te desejam”.

Esta feiticeira se adorna com vestidos esplendorosos e cobertos de jóias e cobre sua cara com um véu. Depois, lança-se a seduzir os homens e são demasiados os que a seguem, até sua própria destruição. O Profeta disse que no dia do Juízo o mundo aparecerá com a forma de uma bruxa horrenda de olhos verdes e dentes proeminentes. Os homens, ao vê-la, dirão: “Piedade! Quem és?” E os anjos responderão: “É o mundo por cuja causa discutíeis e combatíeis amargando-vos as vidas uns dos outros”. Então ela será arrojada ao inferno de onde gritará: “Ó Senhor! Onde estão meus antigos amantes?” Então Deus dará a ordem para que sejam arrojados junto com ela.

Quem quer que contemple seriamente a eternidade passada, durante a qual o mundo não existia, e a eternidade futura, durante a qual não existirá, verá que se trata essencialmente de uma viagem na qual as jornadas estão representadas por anos, as léguas por meses, as milhas por dias e os passos por momentos. Com que palavras poderíamos descrever então, a loucura do homem que pretende convertê-lo em sua residência permanente, e faz planos para dez anos à frente que afetem coisas de que talvez nunca necessite, já que é muito possível que esteja enterrado em dez dias!

Aqueles que se entregaram sem limite aos prazeres do mundo, no momento da morte, serão como um homem que se empanturrou à saciedade de alimentos deliciosos, para, depois disso, vomitá-los. A delícia se perde, mas a desonra se mantém. Quanto mais abundantes tenham sido as posses que desfrutaram na forma de jardins, escravos, escravas, ouro, prata, etc., com maior intensidade sofrerão a amargura de perdê-las. Esta é uma amargura que durará mais do que a morte, já que a alma que converteu a avareza em um hábito permanente, sofrerá necessariamente no outro mundo das dores do desejo insatisfeito.

(1) Harut e Marut: Os dois anjos que – segundo o Alcorão – foram enviados a Babel para testar os homens. (Sura Al-Baqara /A Vaca – Versículo 102) “E seguiram o que os demônios apregoavam, acerca do Reinado de Salomão. Porém, Salomão nunca foi incrédulo, outrossim foram os demônios que incorreram na incredulidade. Ensinaram aos homens a magia e o que foi revelado aos dois anjos, Harut e Marut(34), na Babilônia. Ambos, a ninguém instruíram, se quem dissessem: Somos tão somente uma prova; não vos torneis incrédulos! Porém, os homens aprendiam de ambos como desunir o marido da sua esposa. Mas, com isso não podiam prejudicar ninguém, a não ser com a anuência de Deus. Os homens aprendiam o que lhes era prejudicial e não o que lhes era benéfico, sabendo que aquele que assim agisse, jamais participaria da ventura da outra vida. A que vil preço se venderam! Se soubessem..”
Eram detentores do conhecimento mágico.


abr 21 2009

Autismo e reencarnação?

Eu tenho um problema com as teorias do karma, e da reencarnação, mas nada que um pouco de imaginação não resolva. Em 2005, fiz uma viagem espiritual para Arcos de La Frontera, na Espanha, para encontrar meu Mestre, que só conhecia dos livros. Chegando por lá, adivinha quem eu encontrei? Uma garota autista, filha de uma pessoa do grupo da Alemanha, perfeitamente integrada na rotina do encontro. Uma garota linda, e muito simpática. Devia estar na casa dos trinta, ou quase. Ela me deu os remendos certos para essa história dos meninos estarem “pagando” algo, teoria que alimenta uma certa hipocrisia cercada de comiseração por todos os lados, frequente no espírito cristão em geral, e endêmica no mundo espírita (com algumas honrosas exceções, que admiro e respeito). Nem sempre é tão simples, estar passando por dificuldades porque se fez algo mau no passado que precisa ser reparado. Se assim fosse, Jesus Cristo deveria ter sido um grande escroque na sua penúltima encarnação, já que é aceito que ele sofreu pra dedéu antes de desencarnar na última. A mãe de Kathrin ( a garota autista alemã que mencionei) tem uma teoria, baseada nos antroposofistas que educaram sua filha de que os autistas são avatares ascencionados de outras dimensões, que vêm para a nossa de férias, ou a serviço. Sua carga de sofrimento (quando existe) é percebida de forma muito diferente por um espírito elevado. Meu Mestre, que é também o Mestre da mãe de Kathrin, nunca corroborou esse tipo de hipótese, porque, não seria decoroso a um muçulmano ficar dando seu Aval a teorias reencarnacionistas. No entanto, quando ela perguntou se Kathrin precisaria participar de exercícios espirituais em grupo ou individuais, já que ele a havia recebido de braços abertos no grupo, ele replicou: “Não há necessidade. Ela já vive num estado de oração”, ou algo do gênero. A imaginação humana é pródiga em inventar teorias espiritualistas para justificar suas atitudes, mas nenhuma mitologia, nem islâmica, nem budista, nem cristã, nem espírita ou qualquer que seja o rótulo da estorinha, corresponde à verdade. a Verdade é um mundo sem palavras, de onde todas elas provém, e ao qual nunca descreverão acuradamente. Assim, as histórias nos fazem, assim como as fazemos. Por isso a tarefa de um contador de histórias em qualquer sociedade é sagrada. Os autistas são seres especiais, isso é certo. De que maneira, é com cada um deles. Aqueles com os quais trabalho me ensinam mais do que eu a eles, e — por mais que isso soe clichê, ou piegas — estou sendo completamente sincero. Vejo meu trabalho como uma caminhada espiritual, algo que vai nos conciliar com nossa própria natureza mutante, e fazer de nós pessoas mais inteiras e mais parecidas com o que Deus planeja pra nós. É.. eu também sei inventar histórias. Através delas, é que me invento.


nov 30 2008

Mentira!

Eles dizem:

O Rei do Amor não é fiel.

Mentira!

Eles dizem:

Tua noite nunca terá um amanhecer.

Mentira!

Eles dizem:

Porque te matas por amor?

Após a morte do corpo,

não há sobrevivência.

Mentira!

Eles dizem:

Tuas lágrimas vertidas por amor são vãs:

Uma vez cerrados os olhos,

não há encontro algum.

Mentira!

Eles dizem:

Quando deixarmos o ciclo do tempo,

Mais além de nossa alma não viajaremos.

Mentira!

As pessoas que não escaparam da fantasia dizem:

As histórias dos Profetas

Eram todas meras fantasias.

Mentira!

As pessoas que não seguiram o caminho correto dizem:

O servo não tem caminho para chegar até Deus

Mentira!

Eles dizem:

Aquele que sabe todos os segredos

Não revela ao servo os segredos e mistériosdo invisível sem intermediários

Mentira!

Eles dizem:

Tais intermediários não abrem o segredo de seus corações aos servos

E Ele não faz ascender a Seu servo piedosamente aos céus

Mentira!

Eles dizem:

Quem tem terra em sua composição

Nunca será familiar com o Anfitrião Celestial

Mentira!

Eles dizem:

A alma pura nunca voará

Sobre as asas do amor

Desde este ninho terrenal

Até o ar livre

Mentira!

Eles dizem:

Esse Sol de Deus

Nunca dará retribuição

Pelo peso de cada átomo

De bem e de mal dos homens

Mentira!

Guarda Silêncio!

E se alguém te disser

Que a fala não tem outra expressão

A não ser as letras e os sons

Mentira!

Jalaluddin Rumi

Poeta Sufi

Século XIII


out 29 2008

Assim

Se alguém lhe perguntar como se desvela
a mais perfeita sensação do gozo,
eleve os olhos e diga

Assim.

E quando alguém mencionar
a graça do céu noturno,
suba no telhado, dance, e diga

Assim?

Se alguém quiser saber o que é
o espírito, ou a essência de Deus,
incline a fronte em sua direção,
mantenha o rosto colado

assim.

E quando alguém evocar a velha poesia
das nuvens que, aos poucos, encobrem a lua,
afrouxe pouco a pouco os nós da tunica.

Assim?

Se alguém quiser saber como Jesus
levantou os mortos das tumbas,
não tente explicar o milagre.
Beije seus lábios.

Assim. Assim.

E quando alguém perguntar
o que é morrer por amor,
faça um sinal

aqui.

Se alguém quiser saber quão alto é,
hesite, e meça com seus dedos
os espaços entre as rugas da sua testa.

Deste tamanho.

A alma às vezes larga o corpo,
e então retorna. Se alguém não acreditar,
volte para a minha morada.

Assim.

Quando os amantes sussurram,
estão contando a nossa
história

Assim.

Eu sou um céu onde espíritos vivem.
Mergulhe neste azul profundo
onde a brisa espalha segredos

Assim.

Quando alguém perguntar
o que há-de se fazer,
acenda a vela em suas mãos.

Assim.

Como o perfume de José
chegou a Jacó?

Shhhhhhh!

E como retornou
o suspiro de Jacó?

Shhhhhhh!

A brisa suave limpa os olhos.

Assim.
Quando Shams retornar de Tabriz,
seu rosto há-de mostrar-se atrás da porta,
e nos surpreenderá.

Assim.

Jalaluddin Rumi
Tradução: Jaumir Valença da Silveira Junior

Copiado descaradamente do excelente site Poesia Sufi