jun 30 2009

O Falso refúgio… e o verdadeiro.

Inexorável Solidão que acomete as almas
A meio caminho entre de onde e para onde
Cá onde o homem se engana e esconde
Buscando refúgio sempre em águas calmas

Mas, ai! Sempre lhe alcança tormenta
Testando-lhe cada tábua da barcaça
E inda que aos olhos venha a ser carcaça
Oculto no peito sopro há que o alenta.

Esperneia chorando como veio ao mundo
Quando o momento de deixá-lo se apresenta
A não ser que — por um breve segundo –

Tenha visto, através da tormenta,
E Desde o Silente mar profundo
A suave mão que lhe sustenta!


out 29 2008

Assim

Se alguém lhe perguntar como se desvela
a mais perfeita sensação do gozo,
eleve os olhos e diga

Assim.

E quando alguém mencionar
a graça do céu noturno,
suba no telhado, dance, e diga

Assim?

Se alguém quiser saber o que é
o espírito, ou a essência de Deus,
incline a fronte em sua direção,
mantenha o rosto colado

assim.

E quando alguém evocar a velha poesia
das nuvens que, aos poucos, encobrem a lua,
afrouxe pouco a pouco os nós da tunica.

Assim?

Se alguém quiser saber como Jesus
levantou os mortos das tumbas,
não tente explicar o milagre.
Beije seus lábios.

Assim. Assim.

E quando alguém perguntar
o que é morrer por amor,
faça um sinal

aqui.

Se alguém quiser saber quão alto é,
hesite, e meça com seus dedos
os espaços entre as rugas da sua testa.

Deste tamanho.

A alma às vezes larga o corpo,
e então retorna. Se alguém não acreditar,
volte para a minha morada.

Assim.

Quando os amantes sussurram,
estão contando a nossa
história

Assim.

Eu sou um céu onde espíritos vivem.
Mergulhe neste azul profundo
onde a brisa espalha segredos

Assim.

Quando alguém perguntar
o que há-de se fazer,
acenda a vela em suas mãos.

Assim.

Como o perfume de José
chegou a Jacó?

Shhhhhhh!

E como retornou
o suspiro de Jacó?

Shhhhhhh!

A brisa suave limpa os olhos.

Assim.
Quando Shams retornar de Tabriz,
seu rosto há-de mostrar-se atrás da porta,
e nos surpreenderá.

Assim.

Jalaluddin Rumi
Tradução: Jaumir Valença da Silveira Junior

Copiado descaradamente do excelente site Poesia Sufi


abr 26 2008

Eu sou

Em algum lugar remoto

Entre o que quis ser e o que pude,

Me iludo,

Como toda gente se ilude.

Na estrada estreita e longa

Que leva do primeiro berro ao além

Ando eu

Como toda gente também.

Mas ia despontando o dia

Quando, súbito, de lugar nenhum,

Olhei no espelho

E vi que era um…

Sofri, chorei, morri de amor

Toda gente tem dor

Mas a minha…

Lá sei onde guardei! Apenas sou.

E dos grandes gestos que esperam de mim

Nada ficou.

Fracassei, renasci,

Cá estou.

Não Espere de mim mais do que o paraíso

Que ainda busco

Nos desvãos do caminho

Onde a chave da porta do céu se perdeu

No escuro,

Embora no claro eu procure.

E antes que eu me cure

Deste mal metafísico

E volte a ver na vida

Apenas horários de trens,

Olho-me bem no espelho e digo:

“Não esquece, bicho,

Um dia você já fez chover e ventar

Pariu o tempo

E deu o que falar pra mais de mil anos.

Mas, não tem jeito.

A pílula fez efeito.

E volto a ser… quem mesmo?

Ah… eu.