fev 8 2010

Renúncia

Quando a matéria e o espírito
Eram vistos como coisas discretas, distintas, distantes,
Um sorriso era a insurgência fugaz e casual de um remoinho desconhecido
Que desafiava com vida e movimento a inércia dos elementos.
Agora que a solidez é não mais que uma metáfora
E o manto da noite dos tempos começa a vislumbrar a sua aurora,
As pedras sorriem, desdenhosas,
De nossas fantasias sobre a morte
Enquanto o tempo nos desmancha em ondas concêntricas.
Enquanto a manhã avança, vamos caminhando com um sorriso no fundo da alma, ainda que levando no rosto a gravidade de um faquir.
Recuso-me a jogar o jogo do tempo.
Não pelo que cri, mas pelo que sei:
— que o tempo já passou, e está por dar seus primeiros passos vacilantes, por um caminho já prescrito. Como uma formiga que percorresse indefinidamente um símbolo de infinito, rabiscado displicentemente num papel de pão amassado, deitado ao chão, tendo findado sua precípua utilidade.
Não me prendam nas palavras, não me prendam no tempo!
Silêncio. Um silêncio mais eloqüente que as línguas de todos os missionários.
Quero esse senso do destino que desperta, não a acomodação herdada. Quero o ar puro das alturas de mim mesmo!
Quero não querer, e em não querendo não ser, e em não sendo, comandar os elementos!

Alexandre Costa e Silva


abr 21 2009

Chama!

Quando em meu peito acende o amor por Ti
Sou assaltado de uma febre estranha
Que, desde dentro, ferve minhas entranhas
Chama que arde de onde nunca vi.

E ainda que ontem fosse um káfir
Hoje eu me sinto convertido em chama
Tu findas sempre em consumir quem ama
Submeter-se irrestrito a ti.

Um passa a vida em oração e: fim.
Morre esquecido do Amor Celestial
Outro consome-se a partir do mal
E finda por tornar-se um querubim

Maior que a vida de qualquer mu’min
É se deixar queimar por esta chama;
Só sabe o que é amor a ti quem ama
E sabe a ti consagrar o seu fim.