abr 21 2009

O conhecimento deste mundo

Abu Hamid Al-Ghazzali
De “La Alquimia de La felicidad”, Collección Generalife, Editorial Sufi, 2002

Este mundo é como um palco ou uma praça de mercado, pelo qual passam os peregrinos a caminho de outro mundo. É o lugar onde têm que abastecer-se para o caminho; Dito mais claramente, o homem adquire aqui, por meio de seus sentidos corporais, um certo conhecimento das obras de Deus e, através delas, de Deus mesmo, cuja visão vai constituir a sua felicidade futura. E é precisamente para adquirir este conhecimento que o espírito do homem desceu até este mundo de água e argila.

Enquanto seus sentidos lhe acompanham se diz que está “neste mundo”. Quando lhe abandonam, se diz que se foi ao outro mundo. Enquanto o homem está neste mundo, necessita de duas coisas: primeiro, a proteção e nutrição de sua alma; segundo, o cuidado e alimento de seu corpo.

O alimento apropriado para a alma, como vimos previamente, é o conhecimento e o amor de Deus, e ver-se absorvido pelo amor de outra coisa que não Deus é a ruína da alma. O corpo é, por assim dizer, a montaria da alma, e perece, enquanto a alma permanece. A alma deve cuidar do corpo da mesma forma que um peregrino que vai a Meca cuida de seu camelo;
Porém se o peregrino dedica todo o seu tempo a alimentar e adornar o seu camelo, a caravana lhe deixará para trás e perecerá no deserto. As necessidades corporais do homem são simples e estão compreendidas em três categorias: alimento, vestimenta, e abrigo; porém os desejos corporais com que foi dotado para que as satisfizesse podem revelar-se contra a razão, cujo desenvolvimento é posterior.

Portanto, como já vimos anteriormente, é necessário que sejam dominadas e contidas pelas leis divinas reveladas pelos profetas. Se consideramos o mundo no qual nos temos que desenvolver durante um tempo, encontraremos que está dividido em três reinos: animal, vegetal e mineral; O homem necessita constantemente dos produtos dos três, e deu lugar a três ocupações principais: tecedor, construtor e forjador. Estas, por sua vez, têm ramificações subordinadas, como as de alfaiate, pedreiro, ferreiro, etc.

Nenhuma delas pode ser totalmente independente das demais, e isso proporciona diversos contatos e relações comerciais, e estes, com demasiada freqüência, geral ocasiões para o ódio, para a inveja, os ciúmes e outras enfermidades da alma. Daqui nascem discussões e disputas, tornando necessário um governo político e civil, e o conhecimento da lei.

Desta forma, as ocupações e assuntos do mundo se tornaram mais e mais complicados e incômodos, principalmente devido ao fato de que os homens esqueceram que suas autênticas necessidades são apenas três: vestimenta, comida e abrigo, e que estas só existem com o único objetivo de fazer do corpo um veículo apropriado para a alma em seu caminho ao outro mundo. Caíram no mesmo erro do peregrino de Meca que mencionávamos mais acima, o qual, esquecendo-se do objetivo de sua caminhada, e de si mesmo, dedicava todo o seu tempo a alimentar e adornar seu camelo. A não ser que o homem mantenha uma vigilância muito estreita, é seguro que ficará fascinado e enredado pelo mundo que, como disse o profeta, “é um feiticeiro mais poderoso que Harut e Marut”(1).

O caráter enganoso do mundo se manifesta das seguintes maneiras: Em primeiro lugar, finge que sempre estará contigo, enquanto na realidade te escapa pouco a pouco, dizendo-te adeus como uma sombra que parece estática, mas que está em contínuo movimento. Também o mundo se apresenta sob o aspecto de uma bela feiticeira, que finge estar apaixonada por ti, que te mima, e após isto, se vai com teus inimigos, deixando-te para que morras de desgosto e desespero. Jesus (que a paz seja com ele!) Via o mundo com a forma de uma bruxa velha e feia. Lhe perguntou quantos maridos havia tido; ela respondeu: “inumeráveis”. Perguntou se haviam morrido ou se divorciado dela; Ela lhe disse que havia matado a todos. “Me surpreendem” – disse – “Esses néscios que vêem o que fizeste aos outros e ainda te desejam”.

Esta feiticeira se adorna com vestidos esplendorosos e cobertos de jóias e cobre sua cara com um véu. Depois, lança-se a seduzir os homens e são demasiados os que a seguem, até sua própria destruição. O Profeta disse que no dia do Juízo o mundo aparecerá com a forma de uma bruxa horrenda de olhos verdes e dentes proeminentes. Os homens, ao vê-la, dirão: “Piedade! Quem és?” E os anjos responderão: “É o mundo por cuja causa discutíeis e combatíeis amargando-vos as vidas uns dos outros”. Então ela será arrojada ao inferno de onde gritará: “Ó Senhor! Onde estão meus antigos amantes?” Então Deus dará a ordem para que sejam arrojados junto com ela.

Quem quer que contemple seriamente a eternidade passada, durante a qual o mundo não existia, e a eternidade futura, durante a qual não existirá, verá que se trata essencialmente de uma viagem na qual as jornadas estão representadas por anos, as léguas por meses, as milhas por dias e os passos por momentos. Com que palavras poderíamos descrever então, a loucura do homem que pretende convertê-lo em sua residência permanente, e faz planos para dez anos à frente que afetem coisas de que talvez nunca necessite, já que é muito possível que esteja enterrado em dez dias!

Aqueles que se entregaram sem limite aos prazeres do mundo, no momento da morte, serão como um homem que se empanturrou à saciedade de alimentos deliciosos, para, depois disso, vomitá-los. A delícia se perde, mas a desonra se mantém. Quanto mais abundantes tenham sido as posses que desfrutaram na forma de jardins, escravos, escravas, ouro, prata, etc., com maior intensidade sofrerão a amargura de perdê-las. Esta é uma amargura que durará mais do que a morte, já que a alma que converteu a avareza em um hábito permanente, sofrerá necessariamente no outro mundo das dores do desejo insatisfeito.

(1) Harut e Marut: Os dois anjos que – segundo o Alcorão – foram enviados a Babel para testar os homens. (Sura Al-Baqara /A Vaca – Versículo 102) “E seguiram o que os demônios apregoavam, acerca do Reinado de Salomão. Porém, Salomão nunca foi incrédulo, outrossim foram os demônios que incorreram na incredulidade. Ensinaram aos homens a magia e o que foi revelado aos dois anjos, Harut e Marut(34), na Babilônia. Ambos, a ninguém instruíram, se quem dissessem: Somos tão somente uma prova; não vos torneis incrédulos! Porém, os homens aprendiam de ambos como desunir o marido da sua esposa. Mas, com isso não podiam prejudicar ninguém, a não ser com a anuência de Deus. Os homens aprendiam o que lhes era prejudicial e não o que lhes era benéfico, sabendo que aquele que assim agisse, jamais participaria da ventura da outra vida. A que vil preço se venderam! Se soubessem..”
Eram detentores do conhecimento mágico.