jun 11 2010

Discurso para o lançamento do livro de poemas do meu pai

Numa avaliação apressada, tendemos a imaginar que toda literatura, quanto mais for volumosa e complexa, melhor ela é, mais densa e significativa. Tendemos a avaliar a inteligência, ou a sofisticação das pessoas pelo tamanho dos livros que leram, e mais ainda, dos que escreveram.

No entanto, escrever textos curtos é uma arte quase perdida. Encontrar a imagem, a lembrança, a metáfora que contêm múltiplos universos em poucas palavras não é um ofício popular, precisamente porque é o fruto de um contínuo labor, comparável ao do escultor, que – como uma vez mencionou Michelangelo – deve retirar da pedra bruta tudo aquilo que não é a estátua. Desta perspectiva, o cinzel desnuda a pedra, tal como a pena, a caneta, e mais recentemente o computador do escritor deve fazer com a realidade: Desnudar o fato banal, lapidar a imagem bruta, destroçar a memória-prima em seu confuso estado natural até que dela possa emergir, triunfante, a beleza poética, o lirismo.

Blaise Pascal, o físico, matemático, filósofo e teólogo francês, certa vez, finalizou uma enorme carta a um amigo com uma frase paradoxal: “Desculpe-me. Não tive tempo para escrever algo mais curto”.

Manoel César escreve curto. De todas as horas que ele viveu, algumas lhe marcaram, e lhe ficaram a remoer o coração e as idéias, até que brotassem poemas, em pequenas gotas de uma delicada fragrância literária.

Não foi sem desenvolver um amor inescapável pelas palavras, que fui criado em meio aos livros e aos poemas de Manoel César. Pelas palavras e por esses lugares em que elas habitam, as boas conversas e os livros. Com meu pai, aprendi a sentir pelos livros o tal “amor táctil” de que nos fala Caetano Veloso. Com ele aprendi a delícia de viajar o mundo inteiro, e por mundos inexplorados, no conforto seguro da minha biblioteca.

Com ele aprendi que nossas memórias são jóias preciosas, que, quando lapidadas, dão belíssimos poemas, cujas imagens singelas evocam em nós uma candura que a velocidade do mundo globalizado quase não nos permite mais sentir. O mundo ficou pequeno em mais de um sentido da palavra.

Mas não no sentido em que são pequenos os poemas de Manoel César. Sua pequenez é a da flor que rompe o asfalto, uma imagem tão frequente na literatura, quase a ponto de tornar-se clichê, mas que não perde nunca sua capacidade de expressar a resistência das musas cantantes, acompanhadas das liras da poesia contra a dureza de gerações que não mais sucumbem aos seus apelos.

Apreciem mais este colar de pedras preciosas, lapidadas por esse homem, esse poeta, esse marido, e a quem sempre me orgulharei de chamar de pai.

Alexandre Costa e Silva – Sexta-feira, 11 de Junho de 2010



fev 8 2010

Renúncia

Quando a matéria e o espírito
Eram vistos como coisas discretas, distintas, distantes,
Um sorriso era a insurgência fugaz e casual de um remoinho desconhecido
Que desafiava com vida e movimento a inércia dos elementos.
Agora que a solidez é não mais que uma metáfora
E o manto da noite dos tempos começa a vislumbrar a sua aurora,
As pedras sorriem, desdenhosas,
De nossas fantasias sobre a morte
Enquanto o tempo nos desmancha em ondas concêntricas.
Enquanto a manhã avança, vamos caminhando com um sorriso no fundo da alma, ainda que levando no rosto a gravidade de um faquir.
Recuso-me a jogar o jogo do tempo.
Não pelo que cri, mas pelo que sei:
— que o tempo já passou, e está por dar seus primeiros passos vacilantes, por um caminho já prescrito. Como uma formiga que percorresse indefinidamente um símbolo de infinito, rabiscado displicentemente num papel de pão amassado, deitado ao chão, tendo findado sua precípua utilidade.
Não me prendam nas palavras, não me prendam no tempo!
Silêncio. Um silêncio mais eloqüente que as línguas de todos os missionários.
Quero esse senso do destino que desperta, não a acomodação herdada. Quero o ar puro das alturas de mim mesmo!
Quero não querer, e em não querendo não ser, e em não sendo, comandar os elementos!

Alexandre Costa e Silva


dez 29 2009

YouTube - Bethania Poema do Menino Jesus Fernando Pessoa

Poema belíssimo de Alberto Caeiro (heteronimo de Fernando Pessoa)

Posted via web from Tecnologia Hoje