Discurso para o lançamento do livro de poemas do meu pai
Numa avaliação apressada, tendemos a imaginar que toda literatura, quanto mais for volumosa e complexa, melhor ela é, mais densa e significativa. Tendemos a avaliar a inteligência, ou a sofisticação das pessoas pelo tamanho dos livros que leram, e mais ainda, dos que escreveram.
No entanto, escrever textos curtos é uma arte quase perdida. Encontrar a imagem, a lembrança, a metáfora que contêm múltiplos universos em poucas palavras não é um ofício popular, precisamente porque é o fruto de um contínuo labor, comparável ao do escultor, que – como uma vez mencionou Michelangelo – deve retirar da pedra bruta tudo aquilo que não é a estátua. Desta perspectiva, o cinzel desnuda a pedra, tal como a pena, a caneta, e mais recentemente o computador do escritor deve fazer com a realidade: Desnudar o fato banal, lapidar a imagem bruta, destroçar a memória-prima em seu confuso estado natural até que dela possa emergir, triunfante, a beleza poética, o lirismo.
Blaise Pascal, o físico, matemático, filósofo e teólogo francês, certa vez, finalizou uma enorme carta a um amigo com uma frase paradoxal: “Desculpe-me. Não tive tempo para escrever algo mais curto”.
Manoel César escreve curto. De todas as horas que ele viveu, algumas lhe marcaram, e lhe ficaram a remoer o coração e as idéias, até que brotassem poemas, em pequenas gotas de uma delicada fragrância literária.
Não foi sem desenvolver um amor inescapável pelas palavras, que fui criado em meio aos livros e aos poemas de Manoel César. Pelas palavras e por esses lugares em que elas habitam, as boas conversas e os livros. Com meu pai, aprendi a sentir pelos livros o tal “amor táctil” de que nos fala Caetano Veloso. Com ele aprendi a delícia de viajar o mundo inteiro, e por mundos inexplorados, no conforto seguro da minha biblioteca.
Com ele aprendi que nossas memórias são jóias preciosas, que, quando lapidadas, dão belíssimos poemas, cujas imagens singelas evocam em nós uma candura que a velocidade do mundo globalizado quase não nos permite mais sentir. O mundo ficou pequeno em mais de um sentido da palavra.
Mas não no sentido em que são pequenos os poemas de Manoel César. Sua pequenez é a da flor que rompe o asfalto, uma imagem tão frequente na literatura, quase a ponto de tornar-se clichê, mas que não perde nunca sua capacidade de expressar a resistência das musas cantantes, acompanhadas das liras da poesia contra a dureza de gerações que não mais sucumbem aos seus apelos.
Apreciem mais este colar de pedras preciosas, lapidadas por esse homem, esse poeta, esse marido, e a quem sempre me orgulharei de chamar de pai.
Alexandre Costa e Silva – Sexta-feira, 11 de Junho de 2010