fev 8 2010

Renúncia

Quando a matéria e o espírito
Eram vistos como coisas discretas, distintas, distantes,
Um sorriso era a insurgência fugaz e casual de um remoinho desconhecido
Que desafiava com vida e movimento a inércia dos elementos.
Agora que a solidez é não mais que uma metáfora
E o manto da noite dos tempos começa a vislumbrar a sua aurora,
As pedras sorriem, desdenhosas,
De nossas fantasias sobre a morte
Enquanto o tempo nos desmancha em ondas concêntricas.
Enquanto a manhã avança, vamos caminhando com um sorriso no fundo da alma, ainda que levando no rosto a gravidade de um faquir.
Recuso-me a jogar o jogo do tempo.
Não pelo que cri, mas pelo que sei:
— que o tempo já passou, e está por dar seus primeiros passos vacilantes, por um caminho já prescrito. Como uma formiga que percorresse indefinidamente um símbolo de infinito, rabiscado displicentemente num papel de pão amassado, deitado ao chão, tendo findado sua precípua utilidade.
Não me prendam nas palavras, não me prendam no tempo!
Silêncio. Um silêncio mais eloqüente que as línguas de todos os missionários.
Quero esse senso do destino que desperta, não a acomodação herdada. Quero o ar puro das alturas de mim mesmo!
Quero não querer, e em não querendo não ser, e em não sendo, comandar os elementos!

Alexandre Costa e Silva