Nova década, mundo velho.

Este ano inaugura uma nova década do milênio nascente, do modo como contamos o tempo no ocidente.
Nomear o tempo é um dos modo que inventamos de dar sentido às coisas, não porque elas não tenham um sentido por si mesmas, mas porque nos esquecemos que sentido é esse.
De toda maneira sempre esperamos que tudo se renove, desde as nossas esperanças e energias, até o emprego efetivo desse potencial humano, nas nossas relações sociais e em todas as nossas ações.
No entanto, bem pouco tempo é necessário até que esse ritual de renovação esgote seu sentido emprestado dos antigos ritos sazonais ligados à sucessão das eras.
Essa semana, uma garotinha está passando as férias conosco. Uma garotinha de uma família humilde, filha da manicure da minha mulher.
É uma garotinha linda, de nove anos, e muito esperta.
Ontem ela contou uma história que me cortou o coração em pedaços.
A briga de gangues em seu bairro produz com freqüência corpos banhados em sangue pelo chão, e ela descreveu com detalhes assombrosos para figurarem no universo de uma criança de nove anos, o medo e a desesperança que acomete as pessoas que vivem nesse bairro.
Não cito aqui nomes nem quaisquer outros detalhes, nem mesmo o nome do bairro, porque isso poderia comprometer a segurança da garota.
Mas basta que eu diga que, no começo de 2010, fui apresentado a uma realidade que me envergonhou de ser brasileiro e cearense, e me deixou – eu que creio que Deus não age à nossa revelia, mas através de nós – com a obrigação de tentar atender algo das orações com que essa criança brinda os anjos diariamente, pedindo que lhe arrumem um lugar seguro para morar, longe da brutalidade que a tem cercado desde bebê.


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