Autismo e reencarnação?

Eu tenho um problema com as teorias do karma, e da reencarnação, mas nada que um pouco de imaginação não resolva. Em 2005, fiz uma viagem espiritual para Arcos de La Frontera, na Espanha, para encontrar meu Mestre, que só conhecia dos livros. Chegando por lá, adivinha quem eu encontrei? Uma garota autista, filha de uma pessoa do grupo da Alemanha, perfeitamente integrada na rotina do encontro. Uma garota linda, e muito simpática. Devia estar na casa dos trinta, ou quase. Ela me deu os remendos certos para essa história dos meninos estarem “pagando” algo, teoria que alimenta uma certa hipocrisia cercada de comiseração por todos os lados, frequente no espírito cristão em geral, e endêmica no mundo espírita (com algumas honrosas exceções, que admiro e respeito). Nem sempre é tão simples, estar passando por dificuldades porque se fez algo mau no passado que precisa ser reparado. Se assim fosse, Jesus Cristo deveria ter sido um grande escroque na sua penúltima encarnação, já que é aceito que ele sofreu pra dedéu antes de desencarnar na última. A mãe de Kathrin ( a garota autista alemã que mencionei) tem uma teoria, baseada nos antroposofistas que educaram sua filha de que os autistas são avatares ascencionados de outras dimensões, que vêm para a nossa de férias, ou a serviço. Sua carga de sofrimento (quando existe) é percebida de forma muito diferente por um espírito elevado. Meu Mestre, que é também o Mestre da mãe de Kathrin, nunca corroborou esse tipo de hipótese, porque, não seria decoroso a um muçulmano ficar dando seu Aval a teorias reencarnacionistas. No entanto, quando ela perguntou se Kathrin precisaria participar de exercícios espirituais em grupo ou individuais, já que ele a havia recebido de braços abertos no grupo, ele replicou: “Não há necessidade. Ela já vive num estado de oração”, ou algo do gênero. A imaginação humana é pródiga em inventar teorias espiritualistas para justificar suas atitudes, mas nenhuma mitologia, nem islâmica, nem budista, nem cristã, nem espírita ou qualquer que seja o rótulo da estorinha, corresponde à verdade. a Verdade é um mundo sem palavras, de onde todas elas provém, e ao qual nunca descreverão acuradamente. Assim, as histórias nos fazem, assim como as fazemos. Por isso a tarefa de um contador de histórias em qualquer sociedade é sagrada. Os autistas são seres especiais, isso é certo. De que maneira, é com cada um deles. Aqueles com os quais trabalho me ensinam mais do que eu a eles, e — por mais que isso soe clichê, ou piegas — estou sendo completamente sincero. Vejo meu trabalho como uma caminhada espiritual, algo que vai nos conciliar com nossa própria natureza mutante, e fazer de nós pessoas mais inteiras e mais parecidas com o que Deus planeja pra nós. É.. eu também sei inventar histórias. Através delas, é que me invento.


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