Platéia cede aos encantos de chansonnier

Jornal O POVO – Vida & Arte – Notícia: “Platéia cede aos encantos de chansonnier”
Amanda Queirós
da Redação
Aos poucos, Charles Aznavour conquistou o público cearense na noite do último sábado. O show fez parte da turnê de despedida do cantor francês
As músicas do cantor Charles Aznavour falam de conquistas, de amores possíveis e de paixões arrebatadoras. No show apresentado por ele na noite do último sábado, no Siará Hall, Fortaleza se pôs como personagem dessas letras. Começou tímida, com aplausos burocráticos, mas não resistiu à força cênica encerrada naquela couraça franzina. Acabou batendo palmas de pé completamente encantada pelo vozeirão e pelo carisma do homem que, aos 84 anos, ainda mostra disposição para embalar romances e amores como ninguém.
Em sua autoproclamada turnê de despedida, iniciada em 2006, o cantor francês teve trabalho para envolver o público cearense. Um dos motivos para a animosidade inicial foi o atraso até o começo do show. Mais de uma vez, o público exigiu o início com palmas e chegou a soltar uma vaia quando a produção anunciou a venda de DVDs com gravações de shows do cantor.
No ingresso, a previsão era que tudo começasse às 22 horas. Somente às 23h15min Aznavour apareceu. Sem anúncio oficial, música de fundo ou pompa alguma, ele caminhou em silêncio até o centro do palco embalado somente pelos aplausos para começar o show com Le Temps. Ao fim da canção, ele soltou um bon soir que foi sonoramente reproduzido e pediu desculpas pelo atraso. Os equipamentos chegaram tarde, explicou ele sem a menor preocupação de se fazer entender pelos espectadores com o seu alto e bom francês.
Engatou Paris au Mois d´Aôut e La Terre Meurt, mas até então ainda não havia convencido o público de que valia a pena estar lá. Os mais frios eram os espectadores da platéia VIP, que pagaram R$ 300 por cada cadeira. Às vezes, eles nem se davam ao trabalho de se manifestar ao fim de cada música. Os aplausos mais esfuziantes partiam das margens, cuja cadeira saiu por R$ 90, o ingresso mais barato da noite. Mesmo com o preço salgado, o público compareceu sem cerimônia. O espaço do Siará Hall quase chegou a lotar, em sua maioria, por gente que já havia cruzado os 40 anos.
Era proibido tirar fotos, gravar vídeos ou registrar o áudio do show. Quem disse que o aviso seria respeitado? Aznavour foi bombardeado o tempo inteiro por flashes. Lá pela metade do show, ele se voltou para uma das pessoas da platéia VIP e fez dela bode expiatório para um carão quanto à atitude. De nada adiantou. O público continuou com câmeras a postos.
Foi por esse momento que ele começou a fazer os espectadores entrarem na dele. Aznavour tirou o paletó, se fez de bêbado, jogou lenço para a platéia, dançou e interpretou suas músicas repletas de declamações cheias de charme. O chansonnier não canta só com a voz, mas com o corpo todo. É impressionante a vitalidade que a música imprime nele. Em meio a uma cenografia ultra-básica, ela é a responsável por magnetizar os olhos da platéia.
O set list de 21 músicas foi composto, basicamente, de grandes sucessos, daqueles encontrados em qualquer CD ao melhor estilo “the best of”. No entanto, mesmo entre elas, havia grandes desconhecidas do público. Ninguém arriscava acompanhar o cantor nas letras em francês. Nem mesmo com a ovação de She, seu principal hit, isso aconteceu.
Com pouco mais de uma hora de show, já tinha gente impaciente. Canta La BohÕme!, gritou mais de uma vez o espectador no intervalo de uma música para a outra. A canção foi a penúltima da noite, marcando o único momento em que o cantor foi acompanhado em peso no refrão para, logo sem seguida, encerrar a apresentação com Emmenez-moi.
Enquanto agradecia, tinha gente da platéia pedindo “mais um” em francês. “Em São Paulo, ele voltou e cantou She de novo!”, afirmava esperançosa uma amiga à outra. Mas não teve jeito. Aznavour deixou Fortaleza sem bis. Ele conquistou os cearenses, mas, pelo visto, os cearenses não o conquistaram. “Ele fez só o arroz com feijão e acabou-se”, comentou alguém. “É, mas respeite: ele tá inteiro, hein? Foi um belo show”, concluiu seu acompanhante.