dez 13 2007

Enantiodromia

As pessoas mais próximas de Deus são mais próximas do pecado, porque um pássaro não voa apenas com uma asa.

Nada há se não é nomeado e vivido por contraste. Assim, para viver-se o júbilo do Reino de Deus, há que se haver provado o tormento alucinante do inferno. Assim, como você reconheceria qualquer simples glória? que seria da glória da redenção, caso Adão não houvesse pecado? É Adão quem peca em nós, e em nós se redime na imolação do herói Jesus de onde surge o Redentor Ressucitado, que somos nós, selbst além da certeza e do erro, além da fé e do ateísmo, meta do coração dos que tem sede do fim.

Não há sensação de leveza maior do que o alívio após descarregar-se de um peso pesado.

Buscar o sentido da vida é o sentido da vida. Outra forma de se elaborar isso é que o sentido da vida é preparar-se para morrer.

A partir deste ponto extremo começa uma outra aventura, uma outra caminhada, para o desconhecido, descrito apenas miticamente pelas religiões do mundo.

Mesmo quem gosta de adornar o mito com o logos moderno fica perplexo diante da imensidão do desconhecido.

Como não buscar? Como não viver? Como não amar?

 

Se nadie sabe ni porque reimos ni porque lloramosSe nadie sabe ni porque vivimos ni porque nos vamos
Se en un mar de tinieblas nos movemos
Se todo es dor al derredor y arcano
a lo menos amemos
tal vez no sea en vano.

Amado Nervo, Poeta Argentino

dez 9 2007

Marx, obtusidade e totalitarismo

Eu simplesmente não acredito que o “motor da história” é o conflito entre opressores e oprimidos, ou mesmo entre esquerda e direita. Os representantes dessas dualidades refletem uma realidade mais profunda e integradora, e nesse sentido acredito numa teleologia histórica, numa “mão invisível”, como queria Adam Smith, referindo-se à economia de livre mercado.
Não sou economista, nem sociólogo, mas dividir a humanidade entre esquerda e direita e me incluir em qualquer dos dois grupos é uma idéia que me soa bastante estranha.
Considero o liberalismo uma boa idéia, desde que todos os cidadãos possam ter acesso — garantido por toda a sociedade, não apenas pelo estado — à educação de qualidade (não necessariamente gratuita) e serviços de saúde.
Considero obtusa a polarização do pensamento, e perigosamente totalitária. As utopias igualitárias sempre tendem a reduzir o ser humano a seu menor denominador comum, e como as mentes que o reduzem sempre são as mais obtusas, não importa o hermetismo pseudo-inteligente de seu discurso, o resultado é sempre dos piores.
Some-se isso à tendência dos seres humanos de agirem mais embrutecidamente que de costume quando em grupo — temos aí os exemplos históricos da felizmente extinta URSS, da caduca Cuba, da perigosa recrudescência chavista, da China maoísta que a esquerda celebra e que não passou de um grande assassinato em massa da elite espiritual de um país.
Sinto ferir suscetibilidades, mas desafio qualquer pessoa a me mostrar uma sociedade não-estratificada como as que Marx aponta como começo e fim de sua utopia histórica. Aquilo é apenas pseudo-ciência, ideologia mascarada.
Revolução social pra mim é sinônimo de derramamento de sangue humano, e isso não me soa nada bem. Acredito que — no fim, nossas vontades coletivas dão uma soma maior que cada esforço individual, e o grande “motor da história” está no inconsciente coletivo.
As pessoas são diferentes, e há algo de sintomático nisso: e a doença para a qual este sintoma aponta chama-se humanidade.


dez 5 2007


Veja como tenho a quem puxar: minha maior paixão são os livros, livros sobre todo assunto, principalmente litratura, mas também psicologia e história. Esse aí é o meu pai, e, atrás dele, uma das inúmeras estantes de sua biblioteca. Não tem tesouro mais precioso do que esse que me foi legado: cultura, e o amor pelo conhecimento.

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dez 5 2007

Descanso merecido

Depois de um dia extenuante de trabalho, não há nada mais delicioso que me atirar à minha poltrona e ler um bom livro. No momento estou (re)lendo a obra de C. J. Jung, numa espécie de transição teórica em busca de falar uma linguagem própria em psicologia. Cansei de ser abade de igrejinha psicológica.
Mitologia de tudo quanto é canto também faz parte desse novo empreendimento intelectual. Nesse processo ainda continuo escrevendo febrilmente, e gravando minhas palestras, para ordenar as idéias.
Acho que algo sairá disso, creio que um mestrado.

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dez 1 2007

O Sonho

Um dia acordei e não sabia
Se eu era o que acordava ou ou que dormia
E assim, confuso, fui dar na praia
Pensar ante o mar que se me espraia
Sobre areia e pedra me acalmava.
Mas ainda dúvida persistia
Se vigília ou sono ocorria
Quando, súbito, uma mulher sombria
Uma tia, uma falecida tia
Estancou ante meu rosto e disse:
Morri de ter a vida triste!
E eu disse: Agora que estás morta
Que atravessaste a porta
Entre aqui e o que negam que existe
Diz-me: sabes me responder
Se sou eu quem te pergunta
Ou sou apenas a peça
Que o cérebro de alguém lhe prega?
Disse: esforços a ti não nega
Viver é sonhar
E morrer
É o despertar de um sonho
Eu sonhei um sonho ruim
E acordo agora amarga
Tu te sonhas, tu despertas!
Mas, se durmo e estás alerta
Como estamos conversando?
Porque tu, que estás sonhando
Estás meio acordado
Como quando, balançando
Não distinguimos estado
Este sonho é tua vida
Quando ela se for, o que viste
E amaste, e sentiste,
E Gozaste, e Sofreste
Serão fugaz memória
De um despertar celeste
Ou de um tormento atroz.

Quererás dormir de novo
Para ver se outra vez, em sonho
Ouves de Deus a voz
Que prega evangelho nenhum

Senão conhecer a si
Amar a si e aos seus
Louvar e agradecer a Deus
Por tudo que ocorra no sonho.

E algum outro meio há, eu disse
Além desse eterno sonhar?
Há, ela disse, mas esse
Não há de te interessar.

Serás nobre e compassivo
E vão te caluniar
Terás a conduta de um santo
Todos vão te apedrejar

Secretamente, serás perfeito
Mas cada um, em seu sonho,
Miserável e enfadonho
Julgará tão impossível
Tal completa liberdade
Que viverás escondido
Sonhando teu próprio sonho
Nas trevas da intimidade.

E que caminho é Esse, tia?
E como posso trilhá-lo?
Procura a quem te guie.
Como?
Alguém irá encontrar-te
Quando estiveres pronto
Um deles irá abordá-lo,
Um dos que nunca dormem

E estes sonhos teus
E aqueles que são sonhados
Revelar-se-ão Unidade
Unidade Deus
Uno em multiplicidade
E Plural em Unidade.


dez 1 2007

Escolhas

A noite estava tempestuosa. Havia eletricidade no ar, do lado de fora da casa de campo da família Álvares. Trovões ribombavam freqüentemente. O velho estava sozinho, escrevendo em seu escritório, no andar de cima, o fogo crepitando na lareira.
Estava uma atmosfera perfeita para escrever um conto. Ele queria. Algo porém o impedia.
Antônio Álvares tinha 68 anos, e estava só. Vivia só. Desde há muito tempo escolhera essa vida de solilóquios escritos que jamais havia publicado. Seu pai lhe deixara uma herança que nunca sequer precisara cultivar, através de investimento ou trabalho. Nomeara um jovem amigo procurador de seus bens e estava tudo bem. Ele geria os investimentos e provia o velho do pouco com que vivia.
Mas havia três meses Álvares não conseguia escrever.
Ele não compreendia, a escrita era sua única companhia. Personagens cheios de vida, uma vida que ele nunca vivera, constelavam-se em suas caudalosas páginas.
Américo, o jovem amigo, lhe havia dito inúmeras vezes para publicar, que era material de excelente qualidade. Mas o velho se recusava. Eram diálogos dele para consigo. Américo não podia compreender como uma pessoa produzia tantas tramas geniais e não sentia a menor vontade de dividir isso com ninguém além de si mesmo e de uma ou outra visita, dentre as raras que ainda recebia.
O homem vivia na clausura e quase no anonimato.
Américo fazia questão de dizer, nas reuniões de diretoria da editora que presidia, da existência do velho, e de seu talento. Mas nunca obteve concordância para a publicação dos contos, novelas, poemas e peças de teatro que o velho escrevia freneticamente em sua casa de campo, a única que escolhera para morar, tendo vendido as outras.
Aquela noite estava fria. E o velho estava mais uma vez ali sozinho, demorando sobre alguns pensamentos, relendo velhas composições para ver se algo surgia. Nada. Até que uma frase lhe veio à mente: “vivo aqui, recluso. E se essa vida que escolhi não fosse senão alguém imaginando que sou eu?”
Então começou a história. Lembrou de Ana Amélia, a morena dos cabelos encaracolados e olhos verdes… por onde ela andava agora? Talvez… talvez ela pudesse ter sido sua esposa.
Começou a imaginar uma história. Excitou-se com a possibilidade de voltar a criar. Quem seria este personagem? alguém que, como ele, escrevesse muito, mas, que publicasse.
Alguém que tivesse mulher e filhos, e nessa altura da vida, netos. Alguém que não tivesse escolhido a clausura, o torpor lânguido e preguiçoso da solidão.
Desenhou toda a trajetória do personagem em sua mente. Depois, escreveria. Ele não era um escritor frenético, caótico. Gostava de ter uma boa idéia nas mãos antes de começar.
O relógio bateu doze badaladas.
O velho decidiu começar a escrever. Paulatinamente, foi sentindo o sabor vertiginoso de encontrar a cada parágrafo uma nova imagem para compor a sua trama. Tinha material para um romance.
Ana Amélia…
Ela despejou água quente na xícara que continha o saquinho de chá de Antônio e subiu as escadas, murmurando uma canção antiga. Os degraus de madeira rangiam suavemente em resposta à pressão de seus pés. Abriu a porta e viu antônio escrevendo.
“Como está hoje, meu querido?”, ela diz, “ainda escrevendo suas histórias?”.
Álvares estancou a escrita, apavorado. Virou-se lentamente e a viu. Ana Amélia. Mais velha, cabelos encanecidos nas têmporas… mas indiscutivelmente ela. Arregalou os olhos apavorado. “Mas… o que… você está fazendo aqui?”
“Eu sou… sua esposa, lembra?”
O velho pensou que estava enlouquecendo. Estivera escrevendo sobre isso e agora… como?
A tempestade tonitruava do lado de fora.
“Você não existe, é algum tipo de alucinação”.
“Sou real, querido, tão real quanto você queira.”
“Saia daqui!”, O velho gritou com Amélia, que torceu as feições de pavor e desceu as escadas correndo.
Relâmpago. Trovoada.
O velho volta a escrever. Tinha um filho, o seu personagem. Um rapaz. Um rapaz apaixonado pela literatura, como ele. Mas uma pessoa pragmática, jamais sentiu-se capaz de dar vôos criativos e solitários, como ele mesmo.
Assim, dedicou-se a publicar os livros do pai. Como era bonito aquele rapaz, seu filho. Tinha os olhos da mãe.
Do lado de fora, a voz tímida de Amélia.
“Antônio? Tom? Está bem agora? Você me assustou!”
O velho se levantou e abriu a porta. Ela estava lá.
“Porque me atormenta, visão?”
“Não entendo, querido, você esqueceu de mim?”
O velho fitou-lhe nos olhos demoradamente. Um bela mulher, a quem os anos deram feições mais fortes, mas, ainda atraente.
“vou fingir que você é real”. Relâmpago. Trovoada. “Afinal, que mal me faria? há muito que penso em mim como um louco, aqui encerrado, sozinho.”
“Mas você não está sozinho, Tom. Estou com você. sempre estive.”
Que vida… Álvares parecia estar agora sentindo falta da vida que não havia escolhido. Criando alucinações, depois de velho… Bem, ninguém iria ver mesmo. Tomou a bela senhora em seus braços.
“Desculpe, querida. Devo ter enlouquecido.” e a beijou apaixonadamente.
Foram para a cama e executaram um ritual demorado e feliz que somente um casal maduro saberia desfrutar. Depois, deitados lado a lado, conversando dos tempos idos há tanto.
“Lembra de quando Américo nasceu?” ela disse.
O velho estremeceu. “Américo?”
Américo. O jovem amigo, diretor da editora, que queria sempre publicar seus títulos. O amigo que gerenciava toda a sua herança. Essa ilusão já estava indo longe demais. Realmente amava Américo como a um filho, mas não precisava que um fantasma do passado lhe dissesse isso.
“Isso já está indo longe”, disse Antônio. “Ordeno que desapareça!”
A aparição encheu os olhos de lágrimas.
“O que pensa que sou? como pode me tratar dessa maneira? Sou sua mulher, mãe do seu filho, avó dos seus dois netinhos queridos”.
Américo tinha dois filhos, mas o velho nunca os tinha visto, nem conseguia lembrar deles.
“Como tenho netos” respondeu o velho “se sequer sou casado?”
“Você é Ana Amélia, fiz amor com você uma vez quando era jovem e irresponsável. Antes de saber que o meu destino era a solidão”.
Ela não pôde conter o choro. Chorou baixinho, ouvindo aquelas loucuras. Ergueu-se, saiu do quarto. Antônio voltou ao escritório. Olhou a história que havia escrito. Chorou amargamente sua solidão. Desejou com muita força que aquele sonho fosse verdade, mas sabia que não era. Rasgou aquele papel maldito, que enganara seus sentidos. Dias se passariam, até que ele esquecesse novamente, e se entregasse mais uma vez à solidão, e dessa vez definitivamente. Desistira dos solilóquios, agora apenas uma intensa escuridão o envolvia.

* * *

“Acho que o perdemos de vez”, disse Ana Amélia no telefone, aquela noite, entre lágrimas, para seu filho Américo. “Ele nem lembra mais de nós”.
“Maldita doença”, ele respondeu também chorando. “Tantas cartas recebo de seus leitores, tantas críticas positivas, e ele sequer sabe do sucesso editorial do seu trabalho. A doença faz-lhe pensar que os últimos anos da sua vida simplesmente não existiram. Espero que quando eu envelhecer, não tenha também este mal”.