Histórias que me contava Corina
Corina era a irmã mais nova da esposa de um meu tio. Já era velhinha quando a conheci, e morreu ainda nos anos de minha infância. Católica fervorosa, contava-me histórias de curas maravilhosas e graças alcançadas por meio da fé. Eu em minha meninice escutava e ficava perplexo, dessa perplexidade que apenas as crianças têm, e os sábios sabem preservar.
Uma vez, sonhei que estava sobre o telhado da casa onde Corina morava, de onde se podia ver o quintal da casa da minha avó, onde fui criado. Sonho desses que marcam toda uma vida.Eu sobre o telhado, nenhum sinal de Corina, eu só com meu aturdimento, diante de um gigantesco maremoto, uma onda enorme, que à época ainda não se chamava tsunami cá pelas terras de Cabral…
Aturdido, mas com um inexplicável senso de segurança. Eu sabia que dentro daquela casa moravam histórias. Histórias que
haveriam de me proteger das intempéries da natureza, da minha natureza, que às vezes se levanta contra mim como um
gigantesco maremoto, virando tudo de cabeça para baixo, menos o que cabe nas histórias, o que elas condensam e perpetuam, o que elas registram para toda a posteridade.
Mal me lembro das histórias que Corina contava. Só sei que chovia quando ela morreu, e que eu escrevi — com meus dez anos de idade e poesia à flor da pele — que ela deixou os céus inconsoláveis com sua partida.
O que me marcou, mais que as histórias que Corina contava, foi o potencial das histórias para me salvar das gigantescas ondas que a vida manda, de fora e de dentro de mim, a desafiar minha auto-confiança, meu senso de integridade, a percepção de que sou um só, que não transbordo os limites da minha pele.
Hoje, como psicoterapeuta, vivo de contar e ouvir histórias. As pessoas me contam suas histórias tristes e eu lhes conto histórias de cura, histórias que as protegem dos maremotos de suas vidas. O ato de contar histórias já se anunciava em meu sonho como a atividade crucial da minha vida. Após ouvir minhas histórias, meus pacientes, como eu, depois de ouvir as de Corina, conseguem ficar sobre a casa em pleno maremoto, seguros de que mesmo que ele varresse tudo a seu redor, a casa ficaria, e eles em cima dela. Claro. Seu alicerce nos mantém vivos como espécie, em continuidade histórica por milênios. A casa de Corina tinha um alicerce feito de histórias.
Onde quer que você esteja, Corina, Obrigado. Suas histórias, mesmo as que não lembro, estarão para sempre a criar em mim o meu próprio vir-a-ser.