set 15 2007

Histórias que me contava Corina

Corina era a irmã mais nova da esposa de um meu tio. Já era velhinha quando a conheci, e morreu ainda nos anos de minha infância. Católica fervorosa, contava-me histórias de curas maravilhosas e graças alcançadas por meio da fé. Eu em minha meninice escutava e ficava perplexo, dessa perplexidade que apenas as crianças têm, e os sábios sabem preservar.

Uma vez, sonhei que estava sobre o telhado da casa onde Corina morava, de onde se podia ver o quintal da casa da minha avó, onde fui criado. Sonho desses que marcam toda uma vida.Eu sobre o telhado, nenhum sinal de Corina, eu só com meu aturdimento, diante de um gigantesco maremoto, uma onda enorme, que à época ainda não se chamava tsunami cá pelas terras de Cabral…

Aturdido, mas com um inexplicável senso de segurança. Eu sabia que dentro daquela casa moravam histórias. Histórias que
haveriam de me proteger das intempéries da natureza, da minha natureza, que às vezes se levanta contra mim como um
gigantesco maremoto, virando tudo de cabeça para baixo, menos o que cabe nas histórias, o que elas condensam e perpetuam, o que elas registram para toda a posteridade.

Mal me lembro das histórias que Corina contava. Só sei que chovia quando ela morreu, e que eu escrevi — com meus dez anos de idade e poesia à flor da pele — que ela deixou os céus inconsoláveis com sua partida.

O que me marcou, mais que as histórias que Corina contava, foi o potencial das histórias para me salvar das gigantescas ondas que a vida manda, de fora e de dentro de mim, a desafiar minha auto-confiança, meu senso de integridade, a percepção de que sou um só, que não transbordo os limites da minha pele.

Hoje, como psicoterapeuta, vivo de contar e ouvir histórias. As pessoas me contam suas histórias tristes e eu lhes conto histórias de cura, histórias que as protegem dos maremotos de suas vidas. O ato de contar histórias já se anunciava em meu sonho como a atividade crucial da minha vida. Após ouvir minhas histórias, meus pacientes, como eu, depois de ouvir as de Corina, conseguem ficar sobre a casa em pleno maremoto, seguros de que mesmo que ele varresse tudo a seu redor, a casa ficaria, e eles em cima dela. Claro. Seu alicerce nos mantém vivos como espécie, em continuidade histórica por milênios. A casa de Corina tinha um alicerce feito de histórias.

Onde quer que você esteja, Corina, Obrigado. Suas histórias, mesmo as que não lembro, estarão para sempre a criar em mim o meu próprio vir-a-ser.


set 11 2007

Individuação

Para alguns, é realeza
Para outros, é loucura
Para uns é dia claro
Para outros, noite escura
Para uns é impostura
Para outros, consciência
Para uns é evolução
Para outros, decadência
Para uns, mediunidade
Para outros é delírio
Onde uns vêem Salomão
Outros apenas o lírio
Uns se espelham pelo sim
Se ressentem pelo não
Tudo que lhes nega é ruim
Pálida aparição
Que todos pensam que são
Reflexo do destino
Que eles jamais cumprirão
Para uns é heresia
Para outros, salvação.
Para uns, a poesia
É falta de ocupação
Pra outros, revelação…
Quem tu és? Uns ou outros?
És delírio ou és razão?
És caminho ou és prisão?
Destino, ou ilusão?
Ouve a voz do coração
Ela te diz, suave:
Tu és um, não és outros
Teu caminho é apenas teu.
Observa os descaminhos
E as chances que Deus te deu
Pra te veres por inteiro
E dizeres, com verdade
Sou aquele que vos fala
Do centro da minha cidade
De toda a população
Que me habita, que me é
Sou Aquele que fez meu mundo
Do cabelo à ponta do pé.
Sou aquele a quem Deus disse
“Façamos!”, e descansou.
Sou aquele que do mais fundo de si mesmo diz:
EU SOU!

Alexandre Costa e Silva