fev 2 2007

Ela

Escrito terça-feira, 13 de abril de 2004

012907-2147-ela1.pngAlexandre Costa e Silva

Soçobrava, à procela
Uma barcaça amarela
Os passageiros tremiam
Tremiam de medo dela
Ela que abre os portais
Vestida com véus tais
Que ninguém sabe jamais
Se ela é feia ou bela.

Somente um tripulante
Da barcaça na procela,
Sabia que seu segredo,
Era o segredo dela.
Chegadas as horas tais,
Todos os pobres mortais
Iam-se ter com ela.

Ele tinha olhar perdido
Envolto em manto puído
Seu olhar era de um brilho
Insuspeitado e tranqüilo
Ele que já buscava
Não temia, mas amava
A quem ia consumi-lo

Último véu desta vida
Cuja beleza incontida
Está nos olhos de quem mira;
Ante a força de sua ira
Nenhum homem se contende
Qualquer a ela se rende
A seu soco ou sua lira

Ia a pique, à procela
A barcaça amarela
Cheia de homens descrentes.
Somente um tripulante
- Que é da verdade um amante
Queria encontrar-se com a morte
Queria amigar-se com ela

Pois a esta princesa tão bela
Só teme quem não vê a cela
Em que todos estamos trancados
Sob dez mil cadeados
De carne, nervuras e ossos
Dentro do fundo dos poços
De cada destino de gente

Ia ao fundo, sob procela
A pobre barca amarela
Dentro dela, confinados
Homens com medo dela,
Da morte, que a alguns liberta,
E que vem, ligeira e certa
Sobre a barcaça amarela.