Leite de Rosas


Lembrei da Tia Livande….
Olhando a pia do banheiro, de relance, vi o enxagüante bucal do meu filho sobre a pia e tive um Dèjà vù:
As incontáveis embalagens de leite de rosas que a minha tiazinha Livande comprava pra ficar cheirosa.
Ela era uma pessoa notável. Católica fervorosa, devota de são Francisco, mal ia à igreja, não gostava muito de gente. Preferia os bichos: estes ela os tinha em profusão. Gatos, cães, passarinhos presos que nem ela mesma na gaiola da depressão…
Diz uma lenda familiar que, apesar de tantos anos casada com um carcereiro aposentado que morreu de enfisema pulmonar, ao morrer ela tinha o hímen intacto.
Tal era a fama de “anti-social” da minha tia Livande. A ela rendo homenagem: lembro dela quando vejo os passarinhos que – livres – vêm beber água na piscina aqui de casa.
Porque agora, anos depois de sua morte, seu espírito rompeu as barrinhas frágeis da gaiola e a vejo sempre que esbarro em meus próprios demônios, sobrinhos dos dela.
Também eu, tia Livande, estou nesta gaiola, mas, ainda bem.
Há quem me alimente e cuide, como você cuidou dos seus papacuns e papagaios e periquitos australianos. Deus me alimenta e cuida.
Um dia, dei com uma porta de gaiola displicentemente aberta e escapei, faceiro, só para perceber, frustrado, que havia esquecido como era viver no meio do mato, sem a mão generosa de um dono.
Tal como os pássaros que são atraídos para as gaiolas dos outros (tantos você adquiriu assim, lembra?), voltei, solícito, como um falcão treinado, para o ombro do imperador.
Porque quis ser o imperador eu mesmo e não sou.
Sou o falcão de caça que – ao seu comando – percorre milhas e milhas em busca de alimento para os seus – e só recebe a ração que lhe é devida.
Agradeço a você tia Livande, seus anti-depressivos eram pesados, seus valiuns eram tiros de escopeta. Não tinha transtorno na época, você era só nervosa.
Agora, DSMizados, podemos dizer: temos isso, temos aquilo, tomamos isso e aquilo e o que somos?
Pássaros engaiolados que – um dia – hão de reaprender a voar.
janeiro 26th, 2007 at 00:32
O Pintor, o pássaro e a gaiola
Primeiro pinte uma gaiola com a porta aberta
Depois pinte
algo gracioso,
algo simples,
algo bonito
algo útil
para o pássaro.
Então encoste a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta.
Esconda-se atrás da árvore
sem falar
sem se mover…
Às vezes o pássaro aparece logo
mas ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos se necessário.
A rapidez ou a lentidão do pássaro
não influi no bom resultado do quadro.
Quando o pássaro aparecer
se ele aparecer
observe no mais profundo silêncio
até o pássaro entrar na gaiola.
E quando ele entrar
delicadamente feche a porta com o pincel.
Então
apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar
na plumagem do pássaro.
Em seguida pinte a árvore
escolhendo o mais bonito dos seus galhos
para o pássaro.
Pinte também a folhagem verde
e o frescor do vento
o dourado do sol
e a algazarra das criaturas na relva
sob o calor do verão.
E então espere até que o pássaro decida cantar.
Se o pássaro não cantar
é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal,
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza,
você arranca uma das penas do pássaro
e escreve o seu nome num canto do quadro.
Autor: Jacques Prévert