Leite de Rosas


Lembrei da Tia Livande….
Olhando a pia do banheiro, de relance, vi o enxagüante bucal do meu filho sobre a pia e tive um Dèjà vù:
As incontáveis embalagens de leite de rosas que a minha tiazinha Livande comprava pra ficar cheirosa.
Ela era uma pessoa notável. Católica fervorosa, devota de são Francisco, mal ia à igreja, não gostava muito de gente. Preferia os bichos: estes ela os tinha em profusão. Gatos, cães, passarinhos presos que nem ela mesma na gaiola da depressão…
Diz uma lenda familiar que, apesar de tantos anos casada com um carcereiro aposentado que morreu de enfisema pulmonar, ao morrer ela tinha o hímen intacto.
Tal era a fama de “anti-social” da minha tia Livande. A ela rendo homenagem: lembro dela quando vejo os passarinhos que – livres – vêm beber água na piscina aqui de casa.
Porque agora, anos depois de sua morte, seu espírito rompeu as barrinhas frágeis da gaiola e a vejo sempre que esbarro em meus próprios demônios, sobrinhos dos dela.
Também eu, tia Livande, estou nesta gaiola, mas, ainda bem.
Há quem me alimente e cuide, como você cuidou dos seus papacuns e papagaios e periquitos australianos. Deus me alimenta e cuida.
Um dia, dei com uma porta de gaiola displicentemente aberta e escapei, faceiro, só para perceber, frustrado, que havia esquecido como era viver no meio do mato, sem a mão generosa de um dono.
Tal como os pássaros que são atraídos para as gaiolas dos outros (tantos você adquiriu assim, lembra?), voltei, solícito, como um falcão treinado, para o ombro do imperador.
Porque quis ser o imperador eu mesmo e não sou.
Sou o falcão de caça que – ao seu comando – percorre milhas e milhas em busca de alimento para os seus – e só recebe a ração que lhe é devida.
Agradeço a você tia Livande, seus anti-depressivos eram pesados, seus valiuns eram tiros de escopeta. Não tinha transtorno na época, você era só nervosa.
Agora, DSMizados, podemos dizer: temos isso, temos aquilo, tomamos isso e aquilo e o que somos?
Pássaros engaiolados que – um dia – hão de reaprender a voar.