fev 5 2006

NUNCA CAMINHE SOB O SOL

Alexandre Costa e Silva

Quando vislumbrou a imensidão do alvorescer no horizonte, Aruk sentiu que seu destino era mesmo viajar. Fazia menos de 04 horas desde que havia deixado para trás a aldeia na caverna, e agora toda aquela conversa de seus pais a respeito de sua segurança parecia-lhe apenas um murmúrio distante na memória.

A grandiosidade da paisagem à sua frente era tão majestosa, que tomava todos os seus sentidos, transformando qualquer lembrança em algo menos real do que aquela experiência poderosa. Cercado de montanhas por todos os lados, o ar que respirava tinha um olor de terra e flores.

Pássaros canoros emolduravam aquela visão do paraíso, com seus cânticos de amor, os primeiros do dia; serviam originalmente para seduzir as fêmeas, mas estavam perfeitos embelezando a vida. Aruk respirou a plenos pulmões o ar puro que fazia as cores serem mais vivas.

Não carregava nenhum peso. Nenhuma dúvida pairava sobre sua cabeça. Sentia-se como Adão antes da Queda, se soubesse quem era Adão, ou o que era a Queda. Mas experimentaria sua realidade.

Estava ainda escuro, mas logo seria dia. Já antecipava a beleza e a radiância daquele primeiro de muitos dias que iria passar longe da aldeia na caverna.

Deixou-se ficar inerte sobre a relva abundante, e o sol começou a levantar-se. Nada mais importava. Passado e futuro eram nada diante daquele maravilhoso agora. Pensamento de abundância, e de como os mais velhos eram limitados, com seus medos.

Nâo vá, eles disseram.

O Sol ofusca primeiro, disse o Mago, depois queima. Bobagens, pensava Aruk. Nunca aquele idiota sentiu o que eu sinto agora.

O sol despontava. Primeiros raios. Mais beleza. Beleza inédita. O Sol, dissera o Mago. Nunca caminhe sob o sol. Meras superstições, Aruk refutava calmamente em silêncio, sentindo a vegetação nas costas cobertas apenas com leve tecido de sua túnica.

De repente, o calor começou. Discreto, no início, como uma chama interior, como uma febre leve. Foi se tornando imperceptivelmente mais intenso. Nunca caminhe sob o sol.

Deve ser desse calorzinho que o Mago falava, e papai também… Aruk delirava, literalmente em chamas, enquanto seus irmãos Gok e Agok o reconduziam à caverna escura, amarrado por uma rede metálica, atirada à distância de uma carroça por cujas frestas não penetrava o sol.

Nós te avisamos, disse o Mago, com uma expressão de piedade no olhar. O sol não é para nós. Eu te avisei. Podemos caminhar sob a escura manta protetora da noite. A luz da lua é nossa melhor visão de beleza. Mas expor-se ao sol é um tormento que não vale a contemplação efêmera. Agora serão quase três anos sem se mover direito, aguardando a recuperação total. Quase perde a única dádiva que nos foi dada, a de nos recuperar inteiramente de uma lesão tão extensa e tão severa.

Somos melhores que eles, Aruk. Ainda que eles caminhem de dia e a nós caibam as sombras.

A dor agora era tão intensa que as palavras do Mago soavam distantes. Cada célula do seu corpo sofria as terríveis queimaduras da exposição ao sol. E agora, o que é pior, tinha que matar pessoas indefesas. Matar caminhantes sob o sol.

Eles vinham amarrados e amordaçados, capturados em caçadas noturnas. Estavam apavorados.

Em seus dias de vigor, antes de tentar caminhar sob o sol, Aruk era um caçador respeitoso. Sempre atacava pela frente, dando à vítima uma chance, ainda que remota, de proteger-se ou mesmo de revidar suas investidas. Isso o fazia sentir-se justo.

Pensando na comida? perguntava papai. Não do jeito que imagina, disse Aruk em seu leito de dores. Papai empurra em direção a cama um pobre campista perdido na floresta, e que lhe serviria de alimento. Aruk expõe os caninos e morde-lhe profundamente no pescoço, sugando-lhe com vontade e rapidamente, tanto para abreviar-lhe o sofrimento como pela enormidade da sua fome.

Estas pessoas são quase como nós, papai. Disse, enxugando os lábios, enquanto o caminhante sob o sol caía inerte ao pé da cama.

Deixe que elas mordam seu pescoço e verá que não. Seus caninos são fixos, e bem menores. São frágeis. São fracos. Caminham sob o sol.

E vêem o mundo de uma maneira que jamais veremos.

Vou lhe contar uma história, Aruk. Verá que temos razão em caçá-los.

Conheço todas, papai. E estou cansado. Quero dormir.

Papai deixou Aruk descansar e olhou com preguiça para o cadáver ao lado de sua cama. Amanhã venho buscá-lo. Estou cansado, não foi fácil capturá-lo vivo para você. Não vejo a hora de você voltar a caçar por si próprio.

Aruk já dormia, e não respondeu. Sonhava com a terra prometida, tão sem atrativos para seu fragor juvenil. O escuro planeta de onde um dia o Mago veio com seus ancestrais. Ao acordar, seus olhos deram com algo inexplicável: sua vítima da noite anterior estava sentada numa cadeira, velando seu despertar.

Dormiu bem, criatura das trevas! Quase não acorda!

O quê? Como! Papai! Gok! Agok! Sentou-se a gritar Aruk.

Cale-se! Deu-lhe um soco violento na boca, causando-lhe uma dor adicional. Aruk calou-se.

Como? Perguntou, em um tom mais baixo.

Nâo sei. Acordei há algumas horas, mas não sei quanto tempo passei quase morto lá no chão. Você come alguma coisa além da minha gente? Estou faminto.

Aruk apontou para um pequeno armário à frente da cama. Carne seca. Para os tempos de escassez.

Carne de gente. O homem conteve um enjôo repentino, levando a mão à boca. Olhou em volta: Uma caverna, inteiramente iluminada por tochas. Paredes altas, de mais de dois metros. Nenhuma janela. Um cheiro de carne queimada empestava todo o quarto, que era relativamente amplo, embora a cama de Aruk ocupasse cerca de um terço do espaço. O cheiro de Aruk e de sua aventura ao sol.

Onde estou? perguntou o homem, boquiaberto.

Na aldeia na caverna. O lar do meu povo.

Seu… povo? Bando de sangüinários!Devem ter pacto com o Diabo!

Não conheço esse Diabo, e não temos pacto nenhum com ninguém neste mundo. Eu tenho apenas, um certo fascínio, uma certa curiosidade pelo seu povo…

E mesmo assim somos seu jantar, né?

Aruk sorriu. Somos predadores. Vivemos de carne.

Com tanto bicho, porque carne humana?

Carne de outros bichos dá indigestão. Já tentei comer outras carnes, quando era mais jovem, dado o fascínio que tenho por sua espécie. Mas parece que seu sangue e sua carne servem bem aos nossos sistemas digestivos. Não consigo pensar em nada mais saboroso ou nutritivo. Sempre dou certa vantagem à caça, devo dizer. Sorriu, expondo os caninos retráteis.

E alguém já lhe subjugou em combate? A vantagem já foi útil para alguma caça?

Sinto dizer que não. Vocês são todos frágeis e fracos. Talvez com exceção de você. Tive a impressão de ter sugado até a última gota do seu sangue e você sobreviveu. Além disso, tem uma direita e tanto, Aruk esfrega os lábios levemente.

Já tinha ouvido falar de vampiros antes, mas pensava que fossem lenda.

Vampiros? O que são vampiros?

Vampiros é como nossa gente chama a sua gente.

Ah, nós chamamos vocês por vários nomes. Suco, presas, quitutes. Eu prefiro o nome clássico: caminhantes sob o sol. É mais poético. É tão trágico: que pessoas tão pequenas e fracas tenham uma habilidade que eu invejo tanto: sobreviver ao sol.

O homem correu para um canto do quarto e pegou duas tochas apagadas que estavam encostadas na parede. Cruzou-as e as aproximou de Aruk.

Isso é um cumprimento na sua língua? Perguntou Aruk.

Você não tem medo?

Vai me bater com essas tochas?

A Cruz!

O que tem a cruz?

É superstição. Disse, baixando as tochas.

Vocês acham que temos medo dessas tochas cruzadas?

Vocês são inimigos do Cristo!

Não sei, sinceramente, quem é esse Cristo, mas se é um de vocês, pode apostar que somos, de certa maneira. Não inimigos, da maneira habitual, mas, você sabe: temos que sobreviver. Vocês são uma iguaria fina. Sorriu de novo aquele sorriso amedrontador para o pobre homem.

O homem sentou-se angustiado. Tudo o que sabia sobre vampiros podia ser inútil contra aquela criatura terrivelmente deformada que estava à sua frente.

Não tema, disse Aruk. Não estou com fome. Não sei nada sobre você, mas seu sangue é forte: me alimentou muito bem e ainda sobrou pra te manter vivo. Como se chama?

Alípio.

E o meu nome é Aruk.