fev 25 2006

ESCOLHAS

Alexandre Costa e Silva

A noite estava tempestuosa. Havia eletricidade no ar, do lado de fora da casa de campo da família Álvares. Trovões ribombavam freqüentemente. O velho estava sozinho, escrevendo em seu escritório, no andar de cima, o fogo crepitando na lareira.
Estava uma atmosfera perfeita para escrever um conto. Ele queria. Algo porém o impedia.
Antônio Álvares tinha 68 anos, e estava só. Vivia só. Desde há muito tempo escolhera essa vida de solilóquios escritos que jamais havia publicado. Seu pai lhe deixara uma herança que nunca sequer precisara cultivar, através de investimento ou trabalho. Nomeara um jovem amigo procurador de seus bens e estava tudo bem. Ele geria os investimentos e provia o velho do pouco com que vivia.
Mas havia três meses Álvares não conseguia escrever.
Ele não compreendia, a escrita era sua única companhia. Personagens cheios de vida, uma vida que ele nunca vivera, constelavam-se em suas caudalosas páginas.
Américo, o jovem amigo, lhe havia dito inúmeras vezes para publicar, que era material de excelente qualidade. Mas o velho se recusava. Eram diálogos dele para consigo. Américo não podia compreender como uma pessoa produzia tantas tramas geniais e não sentia a menor vontade de dividir isso com ninguém além de si mesmo e de uma ou outra visita, dentre as raras que ainda recebia.
O homem vivia na clausura e quase no anonimato.
Américo fazia questão de dizer, nas reuniões de diretoria da editora que presidia, da existência do velho, e de seu talento. Mas nunca obteve concordância para a publicação dos contos, novelas, poemas e peças de teatro que o velho escrevia freneticamente em sua casa de campo, a única que escolhera para morar, tendo vendido as outras.
Aquela noite estava fria. E o velho estava mais uma vez ali sozinho, demorando sobre alguns pensamentos, relendo velhas composições para ver se algo surgia. Nada. Até que uma frase lhe veio à mente: “vivo aqui, recluso. E se essa vida que escolhi não fosse senão alguém imaginando que sou eu?”
Então começou a história. Lembrou de Ana Amélia, a morena dos cabelos encaracolados e olhos verdes… por onde ela andava agora? Talvez… talvez ela pudesse ter sido sua esposa.
Começou a imaginar uma história. Excitou-se com a possibilidade de voltar a criar. Quem seria este personagem? alguém que, como ele, escrevesse muito, mas, que publicasse.
Alguém que tivesse mulher e filhos, e nessa altura da vida, netos. Alguém que não tivesse escolhido a clausura, o torpor lânguido e preguiçoso da solidão.
Desenhou toda a trajetória do personagem em sua mente. Depois, escreveria. Ele não era um escritor frenético, caótico. Gostava de ter uma boa idéia nas mãos antes de começar.
O relógio bateu doze badaladas.
O velho decidiu começar a escrever. Paulatinamente, foi sentindo o sabor vertiginoso de encontrar a cada parágrafo uma nova imagem para compor a sua trama. Tinha material para um romance.
Ana Amélia…
Ela despejou água quente na xícara que continha o saquinho de chá de Antônio e subiu as escadas, murmurando uma canção antiga. Os degraus de madeira rangiam suavemente em resposta à pressão de seus pés. Abriu a porta e viu antônio escrevendo.
“Como está hoje, meu querido?”, ela diz, “ainda escrevendo suas histórias?”.
Álvares estancou a escrita, apavorado. Virou-se lentamente e a viu. Ana Amélia. Mais velha, cabelos encanecidos nas têmporas… mas indiscutivelmente ela. Arregalou os olhos apavorado. “Mas… o que… você está fazendo aqui?”
“Eu sou… sua esposa, lembra?”
O velho pensou que estava enlouquecendo. Estivera escrevendo sobre isso e agora… como?
A tempestade tonitruava do lado de fora.
“Você não existe, é algum tipo de alucinação”.
“Sou real, querido, tão real quanto você queira.”
“Saia daqui!”, O velho gritou com Amélia, que torceu as feições de pavor e desceu as escadas correndo.
Relâmpago. Trovoada.
O velho volta a escrever. Tinha um filho, o seu personagem. Um rapaz. Um rapaz apaixonado pela literatura, como ele. Mas uma pessoa pragmática, jamais sentiu-se capaz de dar vôos criativos e solitários, como ele mesmo.
Assim, dedicou-se a publicar os livros do pai. Como era bonito aquele rapaz, seu filho. Tinha os olhos da mãe.
Do lado de fora, a voz tímida de Amélia.
“Antônio? Tom? Está bem agora? Você me assustou!”
O velho se levantou e abriu a porta. Ela estava lá.
“Porque me atormenta, visão?”
“Não entendo, querido, você esqueceu de mim?”
O velho fitou-lhe nos olhos demoradamente. Um bela mulher, a quem os anos deram feições mais fortes, mas, ainda atraente.
“vou fingir que você é real”. Relâmpago. Trovoada. “Afinal, que mal me faria? há muito que penso em mim como um louco, aqui encerrado, sozinho.”
“Mas você não está sozinho, Tom. Estou com você. sempre estive.”
Que vida… Álvares parecia estar agora sentindo falta da vida que não havia escolhido. Criando alucinações, depois de velho… Bem, ninguém iria ver mesmo. Tomou a bela senhora em seus braços.
“Desculpe, querida. Devo ter enlouquecido.” e a beijou apaixonadamente.
Foram para a cama e executaram um ritual demorado e feliz que somente um casal maduro saberia desfrutar. Depois, deitados lado a lado, conversando dos tempos idos há tanto.
“Lembra de quando Américo nasceu?” ela disse.
O velho estremeceu. “Américo?”
Américo. O jovem amigo, diretor da editora, que queria sempre publicar seus títulos. O amigo que gerenciava toda a sua herança. Essa ilusão já estava indo longe demais. Realmente amava Américo como a um filho, mas não precisava que um fantasma do passado lhe dissesse isso.
“Isso já está indo longe”, disse Antônio. “Ordeno que desapareça!”
A aparição encheu os olhos de lágrimas.
“O que pensa que sou? como pode me tratar dessa maneira? Sou sua mulher, mãe do seu filho, avó dos seus dois netinhos queridos”.
Américo tinha dois filhos, mas o velho nunca os tinha visto, nem conseguia lembrar deles.
“Como tenho netos” respondeu o velho “se sequer sou casado?”
“Você é Ana Amélia, fiz amor com você uma vez quando era jovem e irresponsável. Antes de saber que o meu destino era a solidão”.
Ela não pôde conter o choro. Chorou baixinho, ouvindo aquelas loucuras. Ergueu-se, saiu do quarto. Antônio voltou ao escritório. Olhou a história que havia escrito. Chorou amargamente sua solidão. Desejou com muita força que aquele sonho fosse verdade, mas sabia que não era. Rasgou aquele papel maldito, que enganara seus sentidos. Dias se passariam, até que ele esquecesse novamente, e se entregasse mais uma vez à solidão, e dessa vez definitivamente. Desistira dos solilóquios, agora apenas uma intensa escuridão o envolvia.

* * *

“Acho que o perdemos de vez”, disse Ana Amélia no telefone, aquela noite, entre lágrimas, para seu filho Américo. “Ele nem lembra mais de nós”.
“Maldita doença”, ele respondeu também chorando. “Tantas cartas recebo de seus leitores, tantas críticas positivas, e ele sequer sabe do sucesso editorial do seu trabalho. A doença faz-lhe pensar que os últimos anos da sua vida simplesmente não existiram. Espero que quando eu envelhecer, não tenha também este mal”.


fev 5 2006

NUNCA CAMINHE SOB O SOL

Alexandre Costa e Silva

Quando vislumbrou a imensidão do alvorescer no horizonte, Aruk sentiu que seu destino era mesmo viajar. Fazia menos de 04 horas desde que havia deixado para trás a aldeia na caverna, e agora toda aquela conversa de seus pais a respeito de sua segurança parecia-lhe apenas um murmúrio distante na memória.

A grandiosidade da paisagem à sua frente era tão majestosa, que tomava todos os seus sentidos, transformando qualquer lembrança em algo menos real do que aquela experiência poderosa. Cercado de montanhas por todos os lados, o ar que respirava tinha um olor de terra e flores.

Pássaros canoros emolduravam aquela visão do paraíso, com seus cânticos de amor, os primeiros do dia; serviam originalmente para seduzir as fêmeas, mas estavam perfeitos embelezando a vida. Aruk respirou a plenos pulmões o ar puro que fazia as cores serem mais vivas.

Não carregava nenhum peso. Nenhuma dúvida pairava sobre sua cabeça. Sentia-se como Adão antes da Queda, se soubesse quem era Adão, ou o que era a Queda. Mas experimentaria sua realidade.

Estava ainda escuro, mas logo seria dia. Já antecipava a beleza e a radiância daquele primeiro de muitos dias que iria passar longe da aldeia na caverna.

Deixou-se ficar inerte sobre a relva abundante, e o sol começou a levantar-se. Nada mais importava. Passado e futuro eram nada diante daquele maravilhoso agora. Pensamento de abundância, e de como os mais velhos eram limitados, com seus medos.

Nâo vá, eles disseram.

O Sol ofusca primeiro, disse o Mago, depois queima. Bobagens, pensava Aruk. Nunca aquele idiota sentiu o que eu sinto agora.

O sol despontava. Primeiros raios. Mais beleza. Beleza inédita. O Sol, dissera o Mago. Nunca caminhe sob o sol. Meras superstições, Aruk refutava calmamente em silêncio, sentindo a vegetação nas costas cobertas apenas com leve tecido de sua túnica.

De repente, o calor começou. Discreto, no início, como uma chama interior, como uma febre leve. Foi se tornando imperceptivelmente mais intenso. Nunca caminhe sob o sol.

Deve ser desse calorzinho que o Mago falava, e papai também… Aruk delirava, literalmente em chamas, enquanto seus irmãos Gok e Agok o reconduziam à caverna escura, amarrado por uma rede metálica, atirada à distância de uma carroça por cujas frestas não penetrava o sol.

Nós te avisamos, disse o Mago, com uma expressão de piedade no olhar. O sol não é para nós. Eu te avisei. Podemos caminhar sob a escura manta protetora da noite. A luz da lua é nossa melhor visão de beleza. Mas expor-se ao sol é um tormento que não vale a contemplação efêmera. Agora serão quase três anos sem se mover direito, aguardando a recuperação total. Quase perde a única dádiva que nos foi dada, a de nos recuperar inteiramente de uma lesão tão extensa e tão severa.

Somos melhores que eles, Aruk. Ainda que eles caminhem de dia e a nós caibam as sombras.

A dor agora era tão intensa que as palavras do Mago soavam distantes. Cada célula do seu corpo sofria as terríveis queimaduras da exposição ao sol. E agora, o que é pior, tinha que matar pessoas indefesas. Matar caminhantes sob o sol.

Eles vinham amarrados e amordaçados, capturados em caçadas noturnas. Estavam apavorados.

Em seus dias de vigor, antes de tentar caminhar sob o sol, Aruk era um caçador respeitoso. Sempre atacava pela frente, dando à vítima uma chance, ainda que remota, de proteger-se ou mesmo de revidar suas investidas. Isso o fazia sentir-se justo.

Pensando na comida? perguntava papai. Não do jeito que imagina, disse Aruk em seu leito de dores. Papai empurra em direção a cama um pobre campista perdido na floresta, e que lhe serviria de alimento. Aruk expõe os caninos e morde-lhe profundamente no pescoço, sugando-lhe com vontade e rapidamente, tanto para abreviar-lhe o sofrimento como pela enormidade da sua fome.

Estas pessoas são quase como nós, papai. Disse, enxugando os lábios, enquanto o caminhante sob o sol caía inerte ao pé da cama.

Deixe que elas mordam seu pescoço e verá que não. Seus caninos são fixos, e bem menores. São frágeis. São fracos. Caminham sob o sol.

E vêem o mundo de uma maneira que jamais veremos.

Vou lhe contar uma história, Aruk. Verá que temos razão em caçá-los.

Conheço todas, papai. E estou cansado. Quero dormir.

Papai deixou Aruk descansar e olhou com preguiça para o cadáver ao lado de sua cama. Amanhã venho buscá-lo. Estou cansado, não foi fácil capturá-lo vivo para você. Não vejo a hora de você voltar a caçar por si próprio.

Aruk já dormia, e não respondeu. Sonhava com a terra prometida, tão sem atrativos para seu fragor juvenil. O escuro planeta de onde um dia o Mago veio com seus ancestrais. Ao acordar, seus olhos deram com algo inexplicável: sua vítima da noite anterior estava sentada numa cadeira, velando seu despertar.

Dormiu bem, criatura das trevas! Quase não acorda!

O quê? Como! Papai! Gok! Agok! Sentou-se a gritar Aruk.

Cale-se! Deu-lhe um soco violento na boca, causando-lhe uma dor adicional. Aruk calou-se.

Como? Perguntou, em um tom mais baixo.

Nâo sei. Acordei há algumas horas, mas não sei quanto tempo passei quase morto lá no chão. Você come alguma coisa além da minha gente? Estou faminto.

Aruk apontou para um pequeno armário à frente da cama. Carne seca. Para os tempos de escassez.

Carne de gente. O homem conteve um enjôo repentino, levando a mão à boca. Olhou em volta: Uma caverna, inteiramente iluminada por tochas. Paredes altas, de mais de dois metros. Nenhuma janela. Um cheiro de carne queimada empestava todo o quarto, que era relativamente amplo, embora a cama de Aruk ocupasse cerca de um terço do espaço. O cheiro de Aruk e de sua aventura ao sol.

Onde estou? perguntou o homem, boquiaberto.

Na aldeia na caverna. O lar do meu povo.

Seu… povo? Bando de sangüinários!Devem ter pacto com o Diabo!

Não conheço esse Diabo, e não temos pacto nenhum com ninguém neste mundo. Eu tenho apenas, um certo fascínio, uma certa curiosidade pelo seu povo…

E mesmo assim somos seu jantar, né?

Aruk sorriu. Somos predadores. Vivemos de carne.

Com tanto bicho, porque carne humana?

Carne de outros bichos dá indigestão. Já tentei comer outras carnes, quando era mais jovem, dado o fascínio que tenho por sua espécie. Mas parece que seu sangue e sua carne servem bem aos nossos sistemas digestivos. Não consigo pensar em nada mais saboroso ou nutritivo. Sempre dou certa vantagem à caça, devo dizer. Sorriu, expondo os caninos retráteis.

E alguém já lhe subjugou em combate? A vantagem já foi útil para alguma caça?

Sinto dizer que não. Vocês são todos frágeis e fracos. Talvez com exceção de você. Tive a impressão de ter sugado até a última gota do seu sangue e você sobreviveu. Além disso, tem uma direita e tanto, Aruk esfrega os lábios levemente.

Já tinha ouvido falar de vampiros antes, mas pensava que fossem lenda.

Vampiros? O que são vampiros?

Vampiros é como nossa gente chama a sua gente.

Ah, nós chamamos vocês por vários nomes. Suco, presas, quitutes. Eu prefiro o nome clássico: caminhantes sob o sol. É mais poético. É tão trágico: que pessoas tão pequenas e fracas tenham uma habilidade que eu invejo tanto: sobreviver ao sol.

O homem correu para um canto do quarto e pegou duas tochas apagadas que estavam encostadas na parede. Cruzou-as e as aproximou de Aruk.

Isso é um cumprimento na sua língua? Perguntou Aruk.

Você não tem medo?

Vai me bater com essas tochas?

A Cruz!

O que tem a cruz?

É superstição. Disse, baixando as tochas.

Vocês acham que temos medo dessas tochas cruzadas?

Vocês são inimigos do Cristo!

Não sei, sinceramente, quem é esse Cristo, mas se é um de vocês, pode apostar que somos, de certa maneira. Não inimigos, da maneira habitual, mas, você sabe: temos que sobreviver. Vocês são uma iguaria fina. Sorriu de novo aquele sorriso amedrontador para o pobre homem.

O homem sentou-se angustiado. Tudo o que sabia sobre vampiros podia ser inútil contra aquela criatura terrivelmente deformada que estava à sua frente.

Não tema, disse Aruk. Não estou com fome. Não sei nada sobre você, mas seu sangue é forte: me alimentou muito bem e ainda sobrou pra te manter vivo. Como se chama?

Alípio.

E o meu nome é Aruk.