ESCOLHAS
Alexandre Costa e Silva
A noite estava tempestuosa. Havia eletricidade no ar, do lado de fora da casa de campo da família Álvares. Trovões ribombavam freqüentemente. O velho estava sozinho, escrevendo em seu escritório, no andar de cima, o fogo crepitando na lareira.
Estava uma atmosfera perfeita para escrever um conto. Ele queria. Algo porém o impedia.
Antônio Álvares tinha 68 anos, e estava só. Vivia só. Desde há muito tempo escolhera essa vida de solilóquios escritos que jamais havia publicado. Seu pai lhe deixara uma herança que nunca sequer precisara cultivar, através de investimento ou trabalho. Nomeara um jovem amigo procurador de seus bens e estava tudo bem. Ele geria os investimentos e provia o velho do pouco com que vivia.
Mas havia três meses Álvares não conseguia escrever.
Ele não compreendia, a escrita era sua única companhia. Personagens cheios de vida, uma vida que ele nunca vivera, constelavam-se em suas caudalosas páginas.
Américo, o jovem amigo, lhe havia dito inúmeras vezes para publicar, que era material de excelente qualidade. Mas o velho se recusava. Eram diálogos dele para consigo. Américo não podia compreender como uma pessoa produzia tantas tramas geniais e não sentia a menor vontade de dividir isso com ninguém além de si mesmo e de uma ou outra visita, dentre as raras que ainda recebia.
O homem vivia na clausura e quase no anonimato.
Américo fazia questão de dizer, nas reuniões de diretoria da editora que presidia, da existência do velho, e de seu talento. Mas nunca obteve concordância para a publicação dos contos, novelas, poemas e peças de teatro que o velho escrevia freneticamente em sua casa de campo, a única que escolhera para morar, tendo vendido as outras.
Aquela noite estava fria. E o velho estava mais uma vez ali sozinho, demorando sobre alguns pensamentos, relendo velhas composições para ver se algo surgia. Nada. Até que uma frase lhe veio à mente: “vivo aqui, recluso. E se essa vida que escolhi não fosse senão alguém imaginando que sou eu?”
Então começou a história. Lembrou de Ana Amélia, a morena dos cabelos encaracolados e olhos verdes… por onde ela andava agora? Talvez… talvez ela pudesse ter sido sua esposa.
Começou a imaginar uma história. Excitou-se com a possibilidade de voltar a criar. Quem seria este personagem? alguém que, como ele, escrevesse muito, mas, que publicasse.
Alguém que tivesse mulher e filhos, e nessa altura da vida, netos. Alguém que não tivesse escolhido a clausura, o torpor lânguido e preguiçoso da solidão.
Desenhou toda a trajetória do personagem em sua mente. Depois, escreveria. Ele não era um escritor frenético, caótico. Gostava de ter uma boa idéia nas mãos antes de começar.
O relógio bateu doze badaladas.
O velho decidiu começar a escrever. Paulatinamente, foi sentindo o sabor vertiginoso de encontrar a cada parágrafo uma nova imagem para compor a sua trama. Tinha material para um romance.
Ana Amélia…
Ela despejou água quente na xícara que continha o saquinho de chá de Antônio e subiu as escadas, murmurando uma canção antiga. Os degraus de madeira rangiam suavemente em resposta à pressão de seus pés. Abriu a porta e viu antônio escrevendo.
“Como está hoje, meu querido?”, ela diz, “ainda escrevendo suas histórias?”.
Álvares estancou a escrita, apavorado. Virou-se lentamente e a viu. Ana Amélia. Mais velha, cabelos encanecidos nas têmporas… mas indiscutivelmente ela. Arregalou os olhos apavorado. “Mas… o que… você está fazendo aqui?”
“Eu sou… sua esposa, lembra?”
O velho pensou que estava enlouquecendo. Estivera escrevendo sobre isso e agora… como?
A tempestade tonitruava do lado de fora.
“Você não existe, é algum tipo de alucinação”.
“Sou real, querido, tão real quanto você queira.”
“Saia daqui!”, O velho gritou com Amélia, que torceu as feições de pavor e desceu as escadas correndo.
Relâmpago. Trovoada.
O velho volta a escrever. Tinha um filho, o seu personagem. Um rapaz. Um rapaz apaixonado pela literatura, como ele. Mas uma pessoa pragmática, jamais sentiu-se capaz de dar vôos criativos e solitários, como ele mesmo.
Assim, dedicou-se a publicar os livros do pai. Como era bonito aquele rapaz, seu filho. Tinha os olhos da mãe.
Do lado de fora, a voz tímida de Amélia.
“Antônio? Tom? Está bem agora? Você me assustou!”
O velho se levantou e abriu a porta. Ela estava lá.
“Porque me atormenta, visão?”
“Não entendo, querido, você esqueceu de mim?”
O velho fitou-lhe nos olhos demoradamente. Um bela mulher, a quem os anos deram feições mais fortes, mas, ainda atraente.
“vou fingir que você é real”. Relâmpago. Trovoada. “Afinal, que mal me faria? há muito que penso em mim como um louco, aqui encerrado, sozinho.”
“Mas você não está sozinho, Tom. Estou com você. sempre estive.”
Que vida… Álvares parecia estar agora sentindo falta da vida que não havia escolhido. Criando alucinações, depois de velho… Bem, ninguém iria ver mesmo. Tomou a bela senhora em seus braços.
“Desculpe, querida. Devo ter enlouquecido.” e a beijou apaixonadamente.
Foram para a cama e executaram um ritual demorado e feliz que somente um casal maduro saberia desfrutar. Depois, deitados lado a lado, conversando dos tempos idos há tanto.
“Lembra de quando Américo nasceu?” ela disse.
O velho estremeceu. “Américo?”
Américo. O jovem amigo, diretor da editora, que queria sempre publicar seus títulos. O amigo que gerenciava toda a sua herança. Essa ilusão já estava indo longe demais. Realmente amava Américo como a um filho, mas não precisava que um fantasma do passado lhe dissesse isso.
“Isso já está indo longe”, disse Antônio. “Ordeno que desapareça!”
A aparição encheu os olhos de lágrimas.
“O que pensa que sou? como pode me tratar dessa maneira? Sou sua mulher, mãe do seu filho, avó dos seus dois netinhos queridos”.
Américo tinha dois filhos, mas o velho nunca os tinha visto, nem conseguia lembrar deles.
“Como tenho netos” respondeu o velho “se sequer sou casado?”
“Você é Ana Amélia, fiz amor com você uma vez quando era jovem e irresponsável. Antes de saber que o meu destino era a solidão”.
Ela não pôde conter o choro. Chorou baixinho, ouvindo aquelas loucuras. Ergueu-se, saiu do quarto. Antônio voltou ao escritório. Olhou a história que havia escrito. Chorou amargamente sua solidão. Desejou com muita força que aquele sonho fosse verdade, mas sabia que não era. Rasgou aquele papel maldito, que enganara seus sentidos. Dias se passariam, até que ele esquecesse novamente, e se entregasse mais uma vez à solidão, e dessa vez definitivamente. Desistira dos solilóquios, agora apenas uma intensa escuridão o envolvia.
* * *
“Acho que o perdemos de vez”, disse Ana Amélia no telefone, aquela noite, entre lágrimas, para seu filho Américo. “Ele nem lembra mais de nós”.
“Maldita doença”, ele respondeu também chorando. “Tantas cartas recebo de seus leitores, tantas críticas positivas, e ele sequer sabe do sucesso editorial do seu trabalho. A doença faz-lhe pensar que os últimos anos da sua vida simplesmente não existiram. Espero que quando eu envelhecer, não tenha também este mal”.